Primaveras / Jose Faganello

PRIMAVERAS

José Faganello

            “Pois na primavera o ar é puro, / tão puro que as rosas nascentes / que expressamente amor entreabre / tem hálito quase inocente”. (Verlaine, Festas Galantes)

          

  Quando se ouve a palavra primavera, vulgarmente nos vem à mente o período do ano mais ou menos temperado que decorre entre os grandes frios e os grandes calores. Há outros significados, como o nome de uma planta trepadeira cheia de espinhos fortes e ganchosos, com flores de coloração rósea ou púrpura, muito bonitas, extremamente ornamentais. É conhecida também como riso – do- prado, três marias, buganvília, amores de estudante, espinho rosa, unha de gato e sempre-viçosa.

 

            Poeticamente se usa para designar ano, quando se fala em aniversário de pessoa jovem.

 

            Shiller, em seu livro Poesias, melancolicamente escreveu: “A primavera da vida floresce uma vez e nunca mais”.

 

            Os historiadores se apossaram do termo por duas vezes. O ano de 1848 marcou a Europa. Nas principais cidades, a população ocupou as ruas, ergueu barricadas e enfrentaram as tropas governamentais. As rebeliões nacionalistas e liberais ecoaram por todos os cantos. Na França, mais do que em qualquer outro lugar, um amedrontador fantasma político rondava: o fantasma do socialismo radical.

 

            Tudo começou com a primeira crise da história do capitalismo. Nos anos de 1845 e 1846 a seca e as pragas provocaram más colheitas. A destruição das plantações de batata, base da alimentação, matou milhões de pessoas. A miséria do camponês provocou a fome dos operários e a falência de muitas indústrias. O descontentamento popular foi aumentando e líderes radicais como Ledru – Rollin e Louis Blanc conseguiram derrubar a monarquia e implantar a república, mas a exigência de mais e mais direitos para o proletariado provocou a reação da burguesia contra a democracia “excessiva”. O general Cavaignac abafou brutalmente a rebelião operária: 16 mil pessoas assassinadas e 4 mil exiladas.

 

            A burguesia dominante, a classe média, camponeses e pequenos proprietários, temendo a instabilidade política implantada apoiaram em massa a eleição de Luis Bonaparte, sobrinho de Napoleão. Não demorou muito ele deu um golpe de Estado, implantou a ditadura e em seguida acabou sendo coroado imperador Napoleão III.

 

            Mesmo com insucesso do proletariado, os românticos batizaram esse movimento de Primavera dos Povos.

 

            Em 1968 houve a Primavera de Praga. A Tchecoslováquia era governada por Alexander Dubecek, que imprimiu ao país reformas em busca de um “socialismo humanizado”, estimulando a criatividade artística e científica. As lideranças stalinistas foram afastadas, procedeu-se à descentralização e à liberalização do sistema, com amplo apoio de operários, intelectuais e estudantes.

 

            Esse reformismo esbarrou-se na conjuntura soviética internacional. Brejnev, no plano externo, retomava a Guerra Fria. Em 20 de agosto de 1968, tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia. Os dirigentes do movimento tendo a frente Dubcek, foram presos e enviados a Moscou.

 

            Estas duas primaveras foram abortadas pela violência das armas.

 

            Neste domingo, acredito que a maioria dos eleitores deseje que o Brasil, após 510 anos de espera por um governo que, de fato, promova o bem estar social, pensando no todo e não em parte da população, irá depositar seu voto sonhando com uma radiosa primavera para nosso país.

 

            Tanto a Primavera dos Povos como a de Praga, além de terem sidos tristes ilusões, estiveram envolvidas com socialistas. A primeira foi exterminada por anti-socialistas, a segunda pelos próprios socialistas, inconformados com a abertura política.

 

            Nossos três primeiros candidatos nas pesquisas também estiveram envolvidos com o socialismo. Dilma fez parte de movimentos armados; Serra teve de exilar-se e Marina participou do PT radical e dele saiu porque não concordou com o desvirtuamento das metas prometidas pelo partido, das alianças inexplicáveis e da corrupção instalada.

 

            Qual deles merece nossos votos por ter melhor condição de tornar realizada a primavera que tanto desejamos e que seja como Verlaine descreveu, de ar puro, não poluído pela corrupção e com hálitos quase inocentes pelo empenho de governantes desejosos de governarem para o bem estar de todos?

jfagao@gmail.com

 

6 comentários em “Primaveras / Jose Faganello

  1. Olá!!
    Vim através da Lia. Adorei dua primavera. Você nos faz viajar por vários periodos de nossa história primaveril.
    Muito bom mesmo! Parabéns.
    abrços de Lucinda

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  2. Li já varios artigos aqui do Prof. Fagnelo e habituei-me a admirá-lo e a aprender com ele. Neste artigo peço-lhe licença para discordar dele quando chama socialista a ditadores comunistas como Brejnev.Sabe eu li o manifesto comunista de Marx e Engels, aos 17 ou 18 anos, publicado em inglaterra em 1848 e no momento fiquei logo comunista. Só mais tarde compreendi a importancia da liberdade individual na vivencia em sociedade.uma vez que não há um ser humano igual a outro e todos temos direito á vida. Esta minha ideia ganhou mais força quando li um livro de economia mostrando que o sistema capitalista conduz a a maiores niveis de crescimento económico que o sistema comunista de direção central da economia. Por isso, primaveras sim, venham muitas agora que pela minha idade já estou no Outono da Vida. Mas primaveras com liberdade. E pra corrigir os excessos de desigualdade que o capitalismo provoca que os governos atribuam beneficios sociais e incentivos por forma a que se verifique a melhor igualdade de oportunidades possível.

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  3. Acrescento que num dos seus mais belos sonetos Florbela Espanca escreveu:
    Há uma primavera em cada vida, e é preciso cantá-la assim florida/
    pois se Deus nos deu voz foi para pra cantar.
    E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada/que seja a minha noite uma alvorada/ e me saiba perder para me encontrar.

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  4. Li já varios artigos aqui do Prof. Fagnelo e habituei-me a admirá-lo e a aprender com ele. Neste artigo peço-lhe licença para discordar dele quando chama socialista a ditadores comunistas como Brejnev.Sabe eu li o manifesto comunista de Marx e Engels, aos 17 ou 18 anos, publicado em inglaterra em 1848 e no momento fiquei logo comunista. Só mais tarde compreendi a importancia da liberdade individual na vivencia em sociedade.uma vez que não há um ser humano igual a outro e todos temos direito á vida. Esta minha ideia ganhou mais força quando li um livro de economia mostrando que o sistema capitalista conduz a a maiores niveis de crescimento económico que o sistema comunista de direção central da economia. Por isso, primaveras sim, venham muitas agora que pela minha idade já estou no Outono da Vida. Mas primaveras com liberdade. E pra corrigir os excessos de desigualdade que o capitalismo provoca que os governos atribuam beneficios sociais e incentivos por forma a que se verifique a melhor igualdade de oportunidades possível.
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