Pais e filhos / Lia Helena Giannechini



A difícil relação entre pais e filhos começa no desejo da humanidade de perpetuar sua espécie. Não existe interação entre pais e filhos que não tenham uma parcela de nossa ancestralidade. E ela faz, em algumas épocas, uma reviravolta em todos os padrões que a família adota.

Em nossa evolução, ao nos tornarmos adultos, surgem em nosso psiquismo reatividades que desconhecemos. Elas nos deixam à mercê de condições históricas e culturais e se amoldam à modelos nem sempre condizentes com nossa educação.

Estas forças vêm do inconsciente e nos revelam o poder que o nosso psiquismo adquiriu nestes 12 mil anos de desenvolvimento da consciência, somados aos 50 mil anos de desenvolvimento de nossa humanidade, quando o homem se deu conta de suas primeiras ligações com Deus, como criador do Universo, salvador e protetor do homem dos fenômenos naturais e da morte.

Ao enterrar os mortos, as primeiras organizações sociais, começaram a ter os primórdios de regras sociais e evoluíram em suas concepções da “além vida”, criando a religião ( em latim, do verbo religare) e os sistemas de castas sociais.

Quando passamos pela adolescência, nosso mundo se volta para a difícil tarefa de compreender o mundo de dentro e organizar o mundo de fora em palcos que aprendemos a abrir suas cortinas quando são convenientes.

É nesta aprendizagem de abrir e fechar as caixinhas e palcos, que guardamos numa mochila e levamos, carregando nas costas, o que aprendemos em nosso lar, com nossas mães e pais e nossa família, nossa escola, nossos amigos e também o que faz parte da história de nossa geração. É um caldeirão fervente de informações que processamos todos os dias e colocamos nestes estojos que levamos a tira-colo todo dia e apresentamos em nossos cenários, para onde formos.

Ao completarmos a adolescência surge à necessidade urgente de nos tornarmos adultos, sem haver uma prévia capacidade de experimentação de como é a vida, feita por nossas escolhas. Aí vêm os namorados, a faculdade, a profissão e o início de padrões que adotamos para dar conta de nossa individualidade se apresentar ao mundo e conquistar seu lugar ao sol.

Nesta hora é que esta ancestralidade, que vêm de várias gerações anteriores, faz efeito. Não sabemos como escolhemos nossos namorados, antes de conhecê-los muito bem (o que demora por volta de dois anos) e da nossa profissão (o que pode levar até 10 anos). O próprio conhecimento interno também é de primordial importância. Nestas seleções o que conta, na verdade, são os moldes que reconhecemos como atitudes que elegemos diante de valores e regras sociais que adotamos, porque fazem parte de um referencial que queremos perpetuar, desenvolver e alicerçar em nossa própria cultura.

É nesta hora que deixamos de lado artes, prazer, brincadeiras, jogos para nos tornarmos adultos conscientes de seu papel no mundo e parte integrante na história que escrevemos para nós mesmo e nas conquistas que exercem seu papel em todo a organização de vida que fazemos.

Nesta hora os padrões ancestrais falam mais alto. Nem sempre o que aprendemos é o que importa para as conquistas de nossos objetivos. Muitos pais nesta hora se desesperam. Os filhos ficam muito diferentes do que foram educados. Passam a rejeitar todos os exemplos aprendidos para poderem formar o seu. E com isto, empregam um arsenal inconsciente, modelos que não estão ativos e resolvidos pela geração dos pais. Vão buscar alternativas que não são condizentes com todo aquele aprendizado no seio da família trouxe. E assim caminha a humanidade, buscando novas formas de lidar com as pressões de crescimentos interno e sociais. É nesta hora que as drogas se perpetuam como um caminho.

Por isto, ao se desesperarem os pais rompem com o modelo adotado pelo filho e fazem esta ruptura de gerações que pode levar décadas para se reunir novamente. Nos anos 20 as imigrações, com a guerra trouxeram ao Brasil gerações de portugueses, italianos, alemães, holandeses, noruegueses, que romperam com os padrões separatistas de sua nação de berço, envolvendo-se com uma mistura de culturas, que hoje fazem a voz do povo brasileiro. Uma congregação de raças e sabores, que lhe imprimem um arcabouço de criatividade, que poucos outros povos têm.

Neles os resgates de padrões ancestrais, de gerações e países de berço, estão incluídos dentro de um modelo novo, de se relacionar com vários tipos de realidades, que em gerações passadas não convivíamos. O meu primeiro livro a ser publicado é de contos “Doido, Eu?”, organizado por Lucinda Prado,  e  fala exatamente destas diferenças culturais, no cenário de um bairro do centro de São Paulo,  que já foi o mais importante da cidade, mas que aos poucos foi adquirindo esta decadência  das metrópoles que não cuidam de seus patrimônios históricos, como é o centro de São Paulo e que hoje tenta-se resgatar. Nele a convivência com vários tipos de moradores desta região, trouxe uma estória engraçada e que nos faz pensar no valor desta diversidade de culturas que convivemos. “Á sombra do jatobá”, escrito junto com o escritor paulistano, que conhece bem a região, Oswaldo Faustino, dá um retrato de como estas diferenças ficam na cabeça de uma criança e como elas se manifestam em padrões que adotamos como adultos.

Não é muito fácil para os pais compreenderem estes tipos de escolhas. E quase impossível, para o jovem adulto saber de onde vêm aqueles padrões tão diferentes. Somente mais tarde, com a procura de heranças culturais é que vamos ter uma noção do que escolhemos. Geralmente a profissão e o marido, escolhas totalmente inconsciente, têm a ver com estes padrões. E também o modo como tratamos nossos pais, são parte desta reatividade ancestral que sobrepuja a própria educação. Nele falamos de uma maneira inconsciente que não aceitamos o padrão adotado pela família. E seguimos, muitas vezes quebrando a cara, nestes padrões antigos e consonantes a esta família de origem ancestral.

A revolução para ser adulto, passa por esta descoberta de talentos ancestrais, que nem sempre estão disponíveis no seu de nossa família, matriz de nossa identidade. Renovando  estes padrões parece que temos mais chances de viver uma vida realmente nossa, mas deixamos um lado que já está organizado para viver o caos das renovações, e muitas vezes nos perdemos pelo caminho.

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