Capítulo 8 / No Futuro / Sozinho no Mundo

Arthur acorda numa piscina de fluídos. Seus olhos demoram para acostumar com a paisagem que invadia aquele lugar tão inusitado.

As árvores, à minha frente, dominavam o cenário. Por todos os lugares onde olhava, havia um bosque com carvalhos, cedros, pau-brasil, ipês, plátanos-bastardos que margeavam aquele espaço. O verde, de uma floresta inteira, envolvia o lugar. Como se eu estivesse no meio de uma selva, rodeada por mata virgem muito espessa e antiga. As colinas, avistadas daquele lugar, eram recobertas de vegetação densa, que imprimi a sensação de um lugar isolado da civilização.

Minha mente fervilha, onde estou?

Outras pessoas estão acordando, como eu.

Arthur pressente que algo muito diferente, do que ele sempre viveu, está acontecendo ali. A sensação de estranheza passa pelo seu corpo e ele se torna laranja. Como se tivesse em alerta.

– Não é possível que, uma coisa dessa, esteja acontecendo comigo. Estou sonhando?

A sensação de conforto e bem estar é muito alta nessa banheira e os companheiros estão mergulhados nos fluídos, como num momento de preguiça e não querem se levantar. Apenas me olham com curiosidade.

– Que foi, pergunto eu, à minha companheira do lado esquerdo?

Os sons de sua resposta aparecem em minha mente, como se transpassasse meu corpo, num raio penetrante, e me dominasse.

– Você precisa de mais tempo aqui, no centro de recuperação de energia, e era para estar dormindo agora. Você veio de longe e acabou de acordar do sono do transporte.

– De onde eu vim?

Vem uma moça do outro lado da piscina e sua fala também invade meu pensamento, como se as comunicações fossem através de um pensamento, com carga energética potente, que se insere no pensamento, sem avisar.  

– Não se preocupe agora, você vai ficar bem. Levará algumas horas até trocarmos os fluídos de sua energia, para que você possa aproveitar sua experiência atual.

– Você está falando grego para mim. Onde estou e que experiência vocês estão fazendo comigo.

– Arthur, você não precisa gastar sua energia falando. Basta pensar e sua energia passa para mim, quando você quer falar comigo.

– Como você sabe meu nome? Sua voz sai rouca, como se não falasse há muito tempo.

– Os fluídos vão ajudar a recuperar sua capacidade de memória e tudo o que aconteceu com você estará disponível em seu centro de lembranças, em algumas horas. Não se preocupe, isso vai acontecendo naturalmente.

– Onde eu estou? Ainda falando com a boca, Arthur pergunta.

– Se você continuar falando assim com a voz, seu tempo de recuperação pode se estender por muitos dias. Apenas pense o que você quer falar comigo e seu pensamento se transmitirá em minha mente. Vou responder a tudo o que eu puder te dizer agora, falando numa linguagem de sua época.

– Como você se chama? Arthur ainda balbucia pensando nela.

– Isso, você está indo bem. Tente novamente, agora só pense. Meu nome é Yndit. Fale comigo sem mexer com sua boca. Apenas diga o que quer no seu pensamento.

Todos olham para ele surpreso.

– Você é gostosa, Yndit, diz Arthur, pensando nessa mulher linda, que está a sua frente, com uma roupa que ele nunca tinha visto igual, como se, uma seda dourada recobrisse seu corpo e tornasse seu corpo todo visível, deixando a ideia dela estar nua.

– Já vi que vou ter que usar proteção contra seu olhar, senhor indiscreto.

– Você é linda, Yndit. Uma loira e tanto!!! Olhos azuis, cabelos longos, pernas torneadas, bumbum arrebitado, seios feito melões. Uma expressão sorridente, com uma energia fascinante.

– Sei como eu sou, Arthur. Você não precisa me descrever. Todo mundo pode me ver assim e você também.  

A companheira do meu lado explica:

– Ela é uma mentora. Contribui nesse centro de recuperação de energia e memória. Por isso, você está aqui e vai precisar dela para te ajudar. Acho bom você começar a ter respeito por ela. Não pense em sexo agora, que você pode se ferrar, se ela te abandonar aqui, nessa piscina de fluídos.

– Pode deixar Revda, eu vou aguentar essas coisas que passam pelo pensamento dele, porque são lá dos anos de 2018. Ele não entendeu ainda que seu pensamento aparece em todos ao redor dele.

– Agora vocês me deixaram confuso. Todo mundo pode ouvir o que eu pensei? E todos pensam? Que loucura? Como conseguem viver?

– Você espalha sua energia para todo canto, como se tivesse falando para o grupo todo, e então, ela responde para mim e para a outra companheira.

– Mas, o que eu estou fazendo de diferente de vocês?

– Está espalhando sua energia em vez de direcionar para pessoa que está conversando.

– Não consigo entender, diz Arthur falando em voz alta, rouca e pausada.

– Não fale, Arthur, diz Yndit. Estamos recarregando sua energia. Logo você aprenderá tudo o que precisa saber desse mundo que você está agora.

– Mas, onde eu estou?

– No futuro, diz Yndit em seu pensamento.

– O quê????????

– Calma, seu coração não pode se acelerar agora, porque potencializa os efeitos dos fluídos em você. Mantenha-se com batimentos até 100 por minuto, como se tivesse correndo levemente.

– Mas, como controla isso?

Yndit percebe que será um longo caminho com esse recuperado. Ela terá muito trabalho, porque ele tem a ansiedade dos anos 2.000. Naquela época de grandes mudanças sociais as pessoas sofriam de uma ansiedade crônica, porque não sabiam descansar, parar, recobrar forças. Ele ainda está com essa síndrome.

Talvez ele tenha que ficar mais do que algumas horas para recuperar toda sua memória e fazer a atualização de seu sistema energético.

– Vamos com calma, Arthur, você tem a síndrome de ansiedade própria do seu século. Tudo vai ficar claro, assim que seu sistema for atualizado. Você está numa crise de aflição. Aqui tudo é muito natural, não apressamos nada do que fazemos.

– Mas, eu não consigo parar o que eu penso.

– Eu sei disso, por isso estou aqui, conversando com você. Você aprenderá a controlar sua energia e a guardá-la para usar sempre que você precisar dela.

– É você que me ensinará? Estou gostando disso!

– Eu e todos desse mundo.

– Ah! Queria só você.

Ela para e utilizando um truque que tem consigo mesmo, pensa: aqui não fazemos esse tipo de relação exclusiva como ele fez agora comigo, sem repassar a ele o que pensa. Engraçado essas coisas desse século. Contudo, não posso deixar de dizer que gostei, ele me conectou muito profundo, coisa que não deixamos acontecer, normalmente, com pessoas com quem não temos tanta intimidade.

Ela conta à ele, enviando mensagens pelo pensamento. Ele aturdido aceita essa intromissão dela em seu pensamento para saber mais do que lhe aconteceu.

Aqui tudo é feito de energia. Nós acumulamos desde que nascemos, uma quantidade suficiente para utilizar na vida adulta, através do tipo de tarefa que cumprimos para contribuir com a nossa sociedade.[1]

As casas são feitas de energia. Elas tem uma parede transparente e escurecem para haver privacidade, através de controles acionados com o pensamento. Contudo, na maior parte do tempo elas refletem a natureza que está em volta. Elas, também, têm uma porosidade por onde o ar entra e deixa o ambiente numa temperatura agradável.

As alamedas em volta das casas são de grama, modificada geneticamente, para formar um tapete verde no contorno das árvores.

Em cada casa os espaços são amplos, com toda mobília feita de material energético e colocada em quadrantes de armários. É só puxar e usar, como os apartamentos de Hong Kong eram em seu tempo de 2018.

Vou colocar imagens para você ver agora.

Yndit mostra como são as casas de agora, numa tela de computador que se projeta na frente de Arthur. 

Tem vários andares, se a pessoa conseguir acumular energia para fazer. Isso depende de quanto ela obteve de potência até sua vida adulta.

Nessa época se decide onde vai se construir o próprio clã ou viver no que é da família de origem.

As casas de um clã são montadas uma em cima da outra e todos vivem naquela comunidade, doando ao sistema algumas horas de seu trabalho. Você logo verá isso. Assim que terminarmos aqui. Relaxe mais um pouco.

A energia é acumulada até a vida adulta, quando há uma separação dos pais biológicos, para construir seu próprio clã.

Ao sairmos da casa de nossos pais para construir um clã é preciso encontrar um espaço perfeito, agregado ao tipo de energia que queremos ter para a vida toda. Por isso, é necessário nesse tempo, experimentar os diversos lugares que são possíveis para se viver.

O planeta virou uma imensa floresta viva. Não existe mais espaços abertos.

As casas são plantadas no meio da floresta, nessas clareiras naturais que você viu e se elevam do chão até o topo, em alguns andares. Os clãs chegam a ter 100 andares. Enquanto tudo era mostrado pelo computador na frente de Arthur, ele olhava atônito todas essas construções, maravilhado com as inovações tecnológicas e Yndit fica surpresa com essa reação dele.

Mas, não as construímos ao lado de outro clã. São preciso 100 metros ou mais de distância de um clã a outro. Assim todos tem energia suficiente, respirando de suas florestas o ar puro e limpo de sua clareira. O ar para nós é um bem precioso. Muito diferente de seu tempo, onde as máquinas e emissões de carbono pelos carros poluíam todo a atmosfera do planeta, fazendo com que a atmosfera fosse envenenada.

A comida é plantada no topo desses arranhas céus transparentes e dão um charme ao cume da edificação. São alimentos de energia que colhem do sol sua força para viver e transmitir sua potência. Elas são as luzes brilhantes que você vê lá em cima. Vou te dar uma ideia de como é, numa visão área dessa localidade.

Na casa, os objetos são construídos com materiais energéticos. Eles funcionam a base de uma parede invisível de átomos que se agregam e formam o elemento necessário para sua utilização. Não é preciso outro tipo de gerador de força como os motores de carro, geladeira ou esse tipo de coisa do século XXI. Tudo tem potência própria e consumo inteligente. Não se desperdiça energia, água, ar ou terra. Todo consumo é na medida ou passa pelo ciclo de transformação.

O que comemos e produzimos de resíduos em nossos corpos é reaproveitado em ciclos da natureza.

Em cada arranha-céu há um tubo de passagem. As pessoas não precisam subir escadas ou descer. Elas levitam por esse tubo.

O transporte é feito por levitação. Elas pensam e se teletransportam. Porém, tudo isso consome força. Por isso, é preciso fazer todo dia, o tempo necessário de armazenagem do seu status energético. Não dá para sair numa viagem, sem ter a potência necessária para levitar pelo espaço todo.

É possível viajar no tempo também, pelo “buraco de minhoca”, como eram chamados as fendas energéticas de seu tempo. Seu pai entendia muito delas. Mas, isso é uma condição muito especial, acumulada. Foi assim que você veio para cá. Usamos nossa energia especial, porque precisamos de uma informação da cirurgia que foi feita em seus órgãos vitais, no seu século, através da Criogênesis. Porém, depois você verá tudo isso, como aconteceu na época do seu coma.

– Eu estive em coma? Arthur fala aleatoriamente, enviando a mensagem a todos os que estavam na banheira de fluídos e cria uma confusão.

– Sim, Arthur. Você esteve em coma dois anos e meio.

– E o que aconteceu com Helena?

– Você saberá de tudo quando estiver com o centro de sua energia restaurado.

– Ela ficou no passado?

Yndit teve que ser mais efetiva.

– Pare de pensar em coisas que te afligem agora, para que a sua recuperação seja perfeita. Você não pode se emocionar nesse momento, porque modifica toda energia inserida em seu sistema. Vai ficar fraco se voltar o pensamento para episódios dolorosos.

– Não quero deixar de pensar na minha vida!!!                               

– Você está sendo teimoso. Isso vai te custar caro. Não brinque com sua vida agora. Você teve uma segunda chance de viver. Mas, terá que se esforçar pra ficar bem. Sua recuperação completa depende de você.

– Toda sua energia é reprogramada através de Hologramas. Neles há todo tipo de informação necessária para sua vida de agora. A reprogramação é a inserção desse material holográfico em sua mente, completa Yndit, atravessando o pensamento de Arthur e cortando tudo o que ele estava querendo puxar agora, do passado.

– Que horas vou poder levantar? Ele aceita que, depois de passar toda a aflição de ficar sozinho no mundo, era melhor esperar e ver o que acontece.

– Em algumas horas. O sistema completa uma parte hoje e todos os dias você virá aqui para atualizar até completar todos os conhecimentos transmitidos pelos hologramas.

– Não resta mais nada a fazer do que esperar?

– “Senhor agitado”, são apenas algumas horas, para quem ficou em coma dois anos é pouco tempo.

Arthur então passa a relaxar seu corpo naquele conforto que a piscina traz, como se estivesse nos banhos de águas sulfurosas, que existiam perto de sua cidade natal. Sentia-se distante dela, mas, ainda completamente ligado ao tipo de energia que ela lhe trazia. Cheio de ansiedade, de agitação, como se alguma coisa fosse acontecer nos próximos minutos. E essa sensação acaba desaparecendo em pouco tempo, quando ele mergulha numa experiência incrível de bem-estar e relaxamento. Parece que trocaram todos os líquidos impuros de seu corpo e agora ele se sente completamente relaxado, animado e feliz. Sem nem saber porque, seu pensamento agitado dá um tempo e ele consegue mergulhar nesse ambiente inusitado.

Minha experiência é mágica. A floresta, agora recoberta pelo sol da tarde, ilumina a casa de banhos com uma luz dourada, cheia de bolinhas transparentes multicoloridas, que transpassam pela parede refratária, anunciando um ambiente que me protege e me acolhe. As pessoas que dormem ao meu lado tem uma energia solta e leve, tanto quanto Yndit mostrou e eu começo a gostar dessa experiência.  Yndit me olha com carinho e admiração e sabe que estou passando por uma revolução na minha mente. Ela percebe o esforço monumental feito por mim para cumprir sua determinação. Jogo-me em suas mãos, como nunca havia feito antes na vida, porque não há o que perder mais. Tudo foi-se embora e eu nem tenho tempo de viver meu luto. Estou sozinho no mundo, num lugar muito diferente de tudo o que eu conheço e não posso chorar.

Minhas lágrimas descem do meu olho, embora eu tente controlar.

Yndit sabe que é preciso parar agora. Já foram longe demais por hoje.

Ela diz que acabou por hoje e vai levar-me para descansar.

Levanto-me tropeçando nas pernas e perdendo o equilíbrio, mergulho na piscina de novo. Ela me pede desculpas e que eu espere mais alguns minutos. Vai colocar um sal nos fluídos para que eu possa usar a musculatura, que está debilitada.

Ele a agradece de coração e ela fica emocionada.

– Vamos Arthur, vou te levar para um complexo agora. É onde você vai ficar até terminarmos. Ele anda devagar, cambaleante, cheio de inseguranças, porque seu corpo ainda não responde adequadamente.

– Estou com fome Yndit.

– Ok, você terá comida e tudo o que precisa.

– Ai que bom, acho que como um boi agora.

– Exagerado. Logo passa essa sensação de precisar de reposição.

– Mas, é o que eu estou sentido nesse momento.

– Já entendi e tudo está sendo providenciado. Você quer comer carne, né?

– Claro que sim.

– Ok, está pronto.

Ela lança um comando no computador que aparece em sua frente, feito um holograma e ele fica maravilhado com a invenção.

Eles chegam no complexo e ela diz para ele entrar e pensar em tudo que precisa, para que as coisas apareçam em sua frente.

– Até uma mulher? Mas, fala num tom jocoso

– Isso você terá que conquistar.

Ela para na frente da porta do complexo e já na entrada, fico surpreso e maravilhado. O lugar é lindo, aconchegante, convidativo. Ela entra e mostra-me como fazer para que as coisas apareçam. Tudo é embutido, mas, com o comando do pensamento as coisas se tornam visíveis e prontas para usar. A comida estava na mesa, quando ela entra comigo. E ela mostra como puxar o sofá e a cama. E o computador com os hologramas de histórias do mundo atual. Ele compreende e agora ela vai deixá-lo sozinho para que ele descanse.

Como e durmo em seguida um sono profundo e reparador.

[1] As falas de Yndit no pensamento de Arthur serão marcadas pelo itálico.

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