Capítulo 7 / As gêmeas /Sozinho no Mundo

    Helena está em seu quarto, fazendo a arrumação da mala da maternidade. Trabalhou na loja até os 8 meses. Agora, fazia um mês que estava em casa. E precisa ter tudo em ordem, porque está quase na hora de ter as bebês.

         Enquanto arruma os pertences pensa em sua situação.

     – Felicidade quando a gente pede, precisa ter cuidado, porque ela pode acontecer em dobro. É o caso de Susan e Dasha, minhas lindas, pequeninhas, gêmeas.

     – Mas, faz dois dias que ando com dor nas costas e saiu um líquido marrom, preciso ficar esperta.

     – Só podíamos estar iluminados, naquela última transa com Arthur, para acontecer tanta coisa junta. Ele me emprestou sua energia e se esvaziou até ficar em coma. As gêmeas são mais do que um presente, são uma dádiva divina, abrindo espaço para o que eu mais queria na vida: um bebê e vieram dois. Presente em dobro. Agora terei que dar conta das duas.

     Até agora Arthur não acordou do coma. Já fizeram a operação de seus órgãos com a Criogênesis. Esperam implantá-los de volta, em dois anos. Pena, pois ele não verá as meninas crescerem. Contudo, depois ele as acompanha.

    Dr. Alexandre está confiante em sua recuperação. Dona Teresa acredita mais em seu marido, agora. Não fosse por ele, seu filho não estaria vivo hoje. Ele estará bem em 5 anos. E eu creio nele.

       Assim, espero que Arthur possa viver com elas, depois de acordar. A vida está me reservando tantas surpresas que isso poderá acontecer antes do tempo esperado. E eu acredito: assim será.

       Meus pensamentos seguem seu curso enquanto coloco as roupinhas de saída da maternidade. Um macacãozinho rosa e outro lilás. Uma manta pink e outra vinho. Os lacinhos de cabeça, um rosinha bebê com a flor roxinha e outro vinho com flor rosinha bebê. Cada uma terá seu estilo. Nada de tudo igual. Fraldas, cueiros, dois macacãozinhos amarelos e dois de bolinhas roxinho. Pagãozinhos e mijãozinhos rosinhas, brancos, amarelos e verdinhos erva-doce. Tudo tem que ser duplo. A pomada de assadura, os lenços umedecidos, cotonete e todas as coisas para as trocas de fraldas. Dois suportes de carro para os bebês. Acho que está tudo pronto.

      Não vejo a hora. Arthur iria gostar de estar comigo no parto. Ele ficaria ansioso, mas, cuidaria muito de mim.

      Meus devaneios continuam enquanto termino a mala dos bebês. Vou pegar minha mala, quando um líquido começa a escorrer por entre minhas pernas, parecendo que eu estou fazendo xixi nas calças. Ligo para o médico que me manda para a maternidade sem demora.

     Estou tão tranquila que sinto minha barriga endurecer, mas, sem dor.

       Durante a gravidez fiz um curso de preparação para o parto, onde as profissionais ensinavam a fazer as respirações, para a hora do parto. E faziam a gente relaxar o períneo, adquirindo uma consciência dessa parte do corpo tão importante nessa hora e muito esquecida, no dia-a-dia.  Elas ensinam essa tranquilidade e a prontidão para esse tempo  que antecede ao parto. E, isso foi tudo de bom. Vejo seu resultado nesse momento. Sinto-me confiante, segura e preparada para parir. Não é à toa o nome do curso: Crearevite. Criando vidas…

   Acho que não devem ser as contrações ainda. Meu pai já está chegando para me levar à maternidade, enquanto eu termino de fazer minha mala. Minha barriga agora endurece ritmada a cada 10 minutos. Se isso for contrações preciso ir logo para o hospital. Quando meu pai chega as malas já estão lá embaixo, porém, dá-me vontade de comer e eu pego duas bananas e já entro no carro. Agora o endurecimento fica mais rápido, a cada 7 minutos. Logo passa pra seis e quando chego na porta do hospital está em cinco minutos e eu não tenho dor. Porém, há uma tensão alta, cheia de energia. Aviso a enfermeira que pode ser rápido esse parto. Entro na sala de exames e tenho 8 dedos de dilatação e uma anestesia grande em minha pélvis.

     A enfermeira pede pra chamarem o médico e me manda de maca para a sala de cirurgia. O neném vai nascer já. Admiro demais essa rapidez, menos de duas horas e as nenéns estão vindo. Tenho sido abençoada e este é mais um dos milagres recebidos. Tudo está fluindo tão positivo que preciso agradecer.

     Assim enquanto subo de maca no elevador, meus pensamentos se elevam ao meu anjo da guarda e a Deus que me trouxe mais esse presente. A emoção toma conta de mim quando vejo minha mãe, Dona Tereza e Dr. Alexandre na porta do centro cirúrgico. Eles me desejam sorte e minha mãe me beija. Sinto que minha vida é especial.

     Há um cheiro doce no ar, como no dia em que a luz penetrou nossa casa. Parece que o anjo está por perto. Sinto sua força dando-me toda energia necessária para passar por esse momento. Embora eu esteja sozinha, estou acompanhada da energia que me conduz e me alimenta.

    Meu sorriso se ilumina, minhas lágrimas caem de emoção. Percebo meu corpo todo se energizar, numa corrente mais forte onde o corpo todo se aprontasse para o grande momento.

     Quando pulo para a maca do centro cirúrgico uma vontade de fazer cocô muito alta. E eu digo pro médico que me acompanha:

     – Vou fazer cocô.

    Ele me disse para eu fazer força empurrando que as nenéns estão chegando. E quando empurro para baixo, o médico posicionado em baixo de minha vagina me diz:

    – Elas estão chegando. Força!!! Agora!!! E tudo é tão rápido que não me dou conta de quantas forças eu fiz. Apenas ouço o choro de um bebê e sinto outra vontade de fazer mais força, dá vontade de fazer de novo. O médico grita:

     – A outra está vindo enfermeira rápido.

      E há uma correria para pegar a outra neném.

    – Essas meninas são apressadas demais, como se tivessem correndo a maratona. E todos da sala dão risadas. Inclusive eu, que acho graça nessas condições. O médico me deixa ver as duas e depois vai terminar de tirar a placenta da última bebê.

   Essa é uma emoção indescritível. Como se cada momento da vida fosse um caminho pra chegar nesse auge. E todos os sofrimentos se esvaem por um momento e aquele se eterniza, criando um símbolo de amor e paz, onde tudo está correto, perfeito.

    O médico pergunta se já tem nome e eu digo Dasha e Susan, numa ordem invertida. Eles anotam na pulseirinha e cada uma é identificada com seus nomes e com o nome da mãe: Helena Vanderberg.

     Sinto que a cada momento minha vida se torna mais especial.

…………………………………………………………………………………………………….

     Quando elas fazem um ano, levo-as para ver Arthur. Digo a elas que o papai está dormindo um sono muito cumprido. E que um dia ele vai acordar e conhecê-las.

   Procurei um presente que fizesse sentido, para elas levarem ao Arthur. Alguma coisa que ele pudesse sentir que elas existem. Pensei num anel para elas colocarem no dedo do papai. Teria que lembrar as gêmeas. E, por isso, criei uma peça com uma pedra verde, semelhante à cor dos olhos delas. Não são azuis, parecem um verde, mais escuro, que se tornam mel, dependendo da luz. E além da pedra um desenho vazado de duas bebês, com as pernas entrelaçadas formando um par de gêmeas, que se encaixam quando dispostas uma do lado da outra. Uma design de joias elaborou o croquis da peça e um ourives aqui da região construiu ela em ouro e pedra jade.

     Ao entrar no hospital, a visita das gêmeas fora consentida pela administração. Elas de vestidinhos, uma azul e outra laranja e sapatinhos brancos tipo bonecas, correm pelos corredores brincando de pega-pega. Tenho que ralhar com elas. – Esperem e andem devagar. As duas já andam desde os nove meses. Sempre foram muito adiantadas. Falam muitas coisas. Mama, papa, tero, vo, vó, mais, não, nada, bus, carro, auau, batata, mamá, este…

    Ao chegarem ao quarto do Arthur, as duas olham para ele explorando tudo. Peço que não mexam nos aparelhos. Elas mexem em sua mão, pés, rosto e peito. Uma fala para outra: papa, papa, este, este. Pegam a mão de Arthur cada uma de um lado e beijam ao mesmo tempo. E eu aproveito para tirar uma foto desse momento, eternizado pela lembrança. Passo a cada uma delas o presente que trouxe para colocar no dedo dele. Elas são cuidadosas e enfiam o anel no dedo dele, com a minha ajuda. Dasha emocionada diz “papi ti amo”. Susan dá outro beiju e sai logo, mas, vê-se que ficou emocionada. Coloco nelas uma correntinha com uma miniatura desse anel para que lembrem desse momento. E elas fazem uma folia nesse momento. Não consegui segurar a alegria delas, de dar e receber seus presentes. Felicidade que eu gostaria de estar transmitindo a Arthur. Acho que ele pode sentir.

      A vida sem ele segue tranquila. E eu digo isso, para que ele possa se recuperar de tudo o que precisa, sem pressa.

      Elas lhe dão um último beiju e saímos.

   bebesAs duas saem correndo pelo hospital, eu e minhas lágrimas num misto de tristeza e amor, mesmo tendo se passado quase dois anos.

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