Capítulo 6 / Neném a caminho / Sozinho No Mundo

 

Não aguento a curiosidade e passo numa farmácia para comprar um teste de gravidez…

Ao chegar em casa, corro ao banheiro, no andar de cima, para fazê-lo. Sento-me no acento, faço o primeiro jorro em cima de uma tigela, que eu levei pra isso. Coloco na área indicada na fita do teste e espero o resultado. Acabo de fazer o xixi normalmente, esperando dar o tempo de um minuto. As duas faixas vermelhas indicam que eu estou grávida.

É um momento único na vida. Sinto-me nas nuvens, como se uma montanha de mariposas estivessem em meu estômago e tenho a primeira reação de todas as grávidas: um vômito. Poxa, mas, eu nem bem soube que estou grávida e já estou vomitando? Até agora, eu não tive essa reação, por que ao saber da gestação, ela acontece? Estou aqui, colocando tudo que tenho para fora, no entanto, sai apenas uma gosma porque não comi nada ainda.

Oh!! Meu Deus, o que vai ser de mim agora vomitando assim?

Felicidade é uma coisa engraçada, um misto de terror e de alegria, combinando medos e desejos, que eu pensava nunca poder ter. Embaralhado, meu humor está agora. Tenho o corpo paralisado, a boca seca, um desespero enorme e uma angústia que apertam o peito e embola tudo na garganta. Dá vontade de sair gritando, de pular de alegria, de abrir os braços e dizer obrigada “Meu Deus”. Que os anjos, que me protegem, estejam comigo nesse tempo, até o neném nascer e depois resguardem essa vida, que nasce a partir de mim.

Lembro-me de Maria, mãe de Jesus e agradeço a Nossa Mãe Eterna por esse momento único. Ela teve que sair para o deserto, naquela época e esconder seu filho, para que ele não fosse morto. Havia a profecia, de que iria nascer um menino que governaria todos os povos. E passou tantos perigos, tendo sua criança sozinha, numa manjedoura. Sinto-me como ela, somente eu e meu bebê. Queria muito que Arthur me ouvisse agora. Diria a ele que eu o amo, por me dar esse privilégio de ter um filho seu e fazer o mundo seguir em frente, com esse pequenino ser que já habita meu ventre.

Regalia minha, de ter um homem charmoso, com o corpo em forma de armário, ombros largos, pernas longilíneas, nádegas redondas, barriga de tanquinho, rosto afilado, queixo proeminente, cabelos louros e olhos azuis. Meu filho vai ser de olhos azuis!!! Ai, que privilégio, acho ele poderá ser lindo! Mas, já imagino ele, menino sem saber o sexo ainda. Se vier menina, será uma linda bruxinha. Ficará igual ao pai, com a personalidade um tanto solitária, porém, determinada, cheia de ideias criativas. Poderá fazer acontecer, como o pai sempre fez, correr atrás dos seus objetivos e viver em paz consigo. Terá força suficiente para não deixar os outros dominarem sua vida, como seu pai conseguiu fazer.

A vida reservou uma grata surpresa para os avós, Tereza e Alexandre, e para os meus pais também, que nunca esperavam ter um neto, pois sabiam do meu problema. Ainda mais agora, que Arthur está fora do ar, essa criança será a alegria da casa. E, com ela, tudo de bom pode acontecer.

Sr. Marchello e dona Genoveva irão dar pulos de alegria.

Não vejo a hora que eles cheguem em casa. Foram ao teatro hoje e como sempre vão dar uma esticadinha e eu, vou esperá-los aqui em baixo, para contar a novidade. Enquanto isso as lembranças de Arthur me veem à cabeça. Quando ele era criança, em seu quintal de terra, fazia uma trilha através de uma canaleta onde a água podia escorrer. E, dependendo do terreno ela podia ir e voltar, parando em determinados lugares mais baixos. Ele ia construindo seus canais para um barquinho de papel, feito pelo pai, poder seguir em frente.

Sua mãe sempre ralhava com ele, pois era sua brincadeira preferida. O Sr. Alexandre gostaria que ele fosse engenheiro, incentivando-o na brincadeira. Dona Teresa odiaria se ele fosse igual ao pai e colocava em sua cabeça uma determinação para que ele fosse mais criativo. E nessa guerra, ele me contou que tinha uma visão: um dia acordaria num outro planeta, onde ele pudesse ser quem ele quisesse, sem que ela interferisse.

Quando ficou adulto, não gostava do contato com ela, embora de fato, não apreciaria ser como seu pai, um homem perdido no meio de seus estudos. Queria ter um negócio seu, onde a vida pudesse ser prazerosa. Estudar menos e aproveitar mais.  Exatamente o contrário do que seu pai fazia. E nisso, nós dois concordávamos que era muito mais gostoso de viver.

Arthur sempre me dizia que a vida era um dom divino, que não podia ser desperdiçada apenas em cima de livros. Era preciso ter tempo para seguir o caminho das alamedas em flores, do cheiro de fumaça de carro, dos caminhões passando na rua, das belezas e crueldades que se vê ao longo de uma caminhada. E ter espaço para encontrar pessoas, abraçar e conversa aquele tipo de prosa que não leva a nada, mas, que faz a vida valer a pena. Apenas “estar do lado da alma”.

Nosso garoto poderá ter um futuro lindo, assim como o pai.

Nesse momento, interrompo meus devaneios, com um relâmpago de luzes que entra pela janela. Viro-me para uma claridade cor de rosa intensa, que penetra minha casa, apesar de ser noite e não ter ninguém na rua.

Esse feixe róseo se torna mais intenso e entra pela vidraça. Faz meu coração pulsar sem parar, descontrolado, forte e intenso. Um sorriso se ilumina em meu rosto e para recebê-lo e eu me entrego de coração e alma. Cintila em minha barriga esse lampejo, a mergulhar em minhas entranhas. Traz um fluído de paz e alegria, como se tivesse prestes a entregar, a vida desse bebê, à uma força celestial.

Uma luz esfumaçada e etérea penetra meu ventre interpondo-se entre eu e o neném e irradia raios coloridos de matiz translúcida. Sua energia recobre todo meu ser e sinto minhas forças renovadas. Ouço um murmúrio em meus ouvidos, de uma inspiração celestial que chega e abraça minha vida.

Assusto-me com a presença de um ser envolto numa áurea branca, em brumas que traz a sensação de um perfume paradisíaco. Uma voz, doce e suave, soa em meus ouvidos. Ela sussurra que a criança, de meu ventre, está repleta de um dom célico. E se interpõe entre eu e o bebê, anunciando uma missão:

– Helena, estes seres que você carrega em seu ventre tem um destino especial. Deixe que tudo seja feito conforme a vontade de Deus. Elas terão nossa proteção. Sua voz comovente deixa um rastro de energia que se propaga por toda a sala.

Ao mesmo tempo, vejo a imagem de Arthur, ao lado desse brilho, atrás. E isso reconforta meu coração e sopra em minha mente a inspiração de muitas bênçãos. A voz, a luz e a presença de Arthur me fazem sentir aconchegada, com um tesouro especial em minha existência. É um ser iluminado que tenho em meu ventre. E mesmo sendo menina ou menino, não importa agora. Sei que meu amor, irá acompanhá-lo criando uma passagem para sua experiência de vida. Isso me traz paz e alegria no coração, mesmo eu tendo que criá-lo sozinho.

Olho pela vidro e essa luz aos poucos vai se apagando, deixando o rastro de amor e segurança que eu preciso.

Não dou muita atenção a esse momento, porque a fome bate. Estou sem comer a várias horas, desde a tarde e meu estômago ronca demais.

Vou até a cozinha fazer uns pretzel para comemorar e tomar com um chá.

Ali, vejo que minha energia está muito alta, como nunca esteve assim. Sinto-me a dona do mundo. Recordo a entrada da luz rosa na sala e não acho outra explicação, a não ser algum tipo de amor me visitando. Deve ser o Arthur em pensamento que está enviando energias ou a Nossa Senhora me visitando nesse momento especial. Vale a comemoração.

Minha mãe, entra perguntando quem está ai?

– Oi mãe, sou eu, fazendo pretzels aqui. Já estou colocando eles no forno. Esperem não vão dormir que eu quero conversar com vocês.

– Coisa do Arthur, filha? Alguma novidade?

– Esperem já vou contar!

Dona Genoveva, italianíssima começa a falar sem parar antecipando todas as conclusões que poderia existir na vida do Arthur. Mal sabe ela, que vai ter um choque agora.

Marchello chega perto da filha e sente seu perfume doce.

– Pai me ajuda aqui com as taças.

– Taças, filha? O que vamos comemorar?

Dona Genoveva leva um susto:

– Você está de namorado novo, e continua a falar sem parar! É o médico que fez você cair no hospital?

– Calma mãe, já vou contar…

– Vamos brindar enquanto os pretzels assam no forno.

– Mas, a quê, diz seu Marchelo?

– Você não queriam um neto? Então, ele está a caminho!  Aliás, uma neta, acho eu!

Pensando bem nesse momento recordo a voz e ela me dizia que seriam seres especiais. Será que é mais de um?

– Como?

– Um neto pai!!! Não vai ficar feliz?

– Vamos brindar, interroga ela, olhando para seus pais?

– Você é maluca, diz dona Genoveva com o sorriso mais lindo do mundo!!! Agora que devia encontrar outro homem, vai ter filho do que está em coma? Você é inusitada, minha filha. Mas, vamos comemorar, não, Marchello?

– Claro, conta essa história direito pra gente, Helena.

– Pai, você sabia que eu não podia ter filhos, então não ficava me prevenindo com o Arthur. E no dia, vocês já sabem disso, tínhamos passado no Motel antes de vir para casa quando aconteceu o choque anafilático dele. Isso vocês também sabiam.

– Mas, daí você ficar grávida é um grande passo, não?

– É pai, porém só suspeitei quando fizemos a transferência dele, porque senti um enjoo na ambulância. Depois no quarto senti uma tontura. Aí passei na farmácia e comprei um teste de gravidez. Vim pra casa e fiz logo que cheguei. Vomitei tudo o que eu não tinha no estômago, porque passei o dia todo sem comer. E aqui estou querendo comer pretzels agora.

– Meu Deus do céu, você vai ser como sua mãe. Ela me fazia atravessar a cidade atrás de goiaba, amora, romã, manga verde, alcachofra, cogumelos…Tudo o que era difícil da época ela queria.

– Mas, vocês não falaram se estão felizes?

– Claro, filha. Vem dar um abraço!

Os três se juntam em um abraço coletivo e choram de emoção. As lágrimas da Helena, caem no rosto e lambuzam a da sua mãe que escorre na do seu pai e as dele, se misturam com as da Helena, fazendo uma meladeira em todos.

O pretzel fica pronto e Helena come de gosto, com o chá, depois da champanhe que tomaram juntos, conversando sobre o futuro dela.

O pai, tão protetor disse que ia ajudá-la no que precisasse. Se ela tiver que parar com a loja, poriam outra pessoa para cuidar e ela ficaria em casa aguardando o bebe nascer, enquanto Arthur não acorda. Marchello iria rezar para que ele acordasse, todos os dias.

Dona Genoveva ia começar uma novena a Maria, para que ele se recuperasse.

Helena vai dormir, feliz da vida!!! Ao dormir um sonho começa e só vai terminar ao amanhecer.

O anjo lhe dirige a palavra em sussurros e deixa no ar que uma longa viagem está sendo preparada para que ela e suas filhas possam superar a barreira do tempo. Mas, elas terão que cumprir a missão que lhes foi designada. E para isso precisam estar sozinhas e fazer as pessoas entenderem como cuidar de sua energia e de toda a luz que envolve suas casas. A missão delas será abrir uma nova perspectiva de vida para todos os que as cercam. Para isso precisam ficar aqui e crescerem juntos de suas famílias.

Helena se bate na cama, com essa revelação. Como se fossem separar as duas meninas. E ela terá que deixar isso acontecer, mesmo sendo uma das coisas mais difíceis de sua vida.

Acorda de manhã com a sensação de que muita coisa ainda vai acontecer, mas, está mais do que feliz. E nada poderá deter essa onda gigantesca de felicidade

           

 

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