Publicado em História

meninas e meninos do rio/ vítimas de patologias sexuais familiares / Lia Helena

Meninas e meninos do rio, vítimas de patologias sexuais familiares!!!

 

Eu não compreendo como tantos especialistas que estão falando da tragédia do Rio de Janeiro, onde 12 adolescentes, 11 meninas e um garoto foram brutalmente assassinados numa escola, não conseguem entrar na dimensão das patologias familiares que existem por traz desta tragédia.

A carta deixada pelo assassino nos conduz a uma pista que a imprensa e os debatedores estão deixando de lado, falando de “os impuros” (homens, no caso, ditos de uma maneira velada pelo assassino) não poderiam tocar em seu cadáver e uma “virgem” (normalmente adolescente ainda, na cabeça do assassino) poderia tocar seu corpo, lavá-lo e depois embrulhá-lo num lençol previamente reservado pelo assassino para isto. Esta informação nos conduz às patologias que o assassino deve ter adquirido em sua vida familiar e escolar.

Fico pensando nas dezenas de pacientes que tive que eram calados, entravam mudos na sessão e saiam silenciosos. Onde eu tinha que falar durante um ano inteiro, sem que eles abrissem a boca, até eles terem confiança de contar o que havia acontecido dos abusos que sofreram, onde às vezes nem eles mesmos sabiam e nas regressões que fazia até chegarmos nestas violências, que os emudecera.

E em alguns agressores, que mantinham seus mundos acobertados, por uma imagem de pessoas respeitáveis e depois contavam as atitudes desmedidas, que faziam com parceiros sexuais.

Este é um tema que a TV não aborda, as famílias não falam sobre, os amigos quando sabem não comentam e os abusados se escondem.

Estas patologias começam na família. Onde pai, tio, avô, irmão e algumas vezes até tia, avó, vizinhas e amigas, amigos da família fazem da criança seu brinquedo de fantasias sexuais. Não conheço família onde não tenha nenhuma patologia sexual estabelecida. Nelson Rodrigues foi o escritor que mais abordou estes temas com clareza.

No caso do maníaco do Embu, que estuprou adolescentes e até o da Suzana Richthofen comenta-se da possibilidade dos abusos sofridos por ela, pelo pai, com conivência da mãe.

Em “Você pode curar sua vida”, de Louise Ray, ela conta como foi estuprada pelo padrasto, e como a mãe foi conivente com ele levando-a a sair de casa e se prostituir para sobreviver.

Zeilton Feitosa conta em seu livro “Íntimo Oficio”, como aconteceram seus primeiros anos de relações sexuais e como seus abusadores passavam pelo padrão de família que seu irmão adotava. Um livro para ser lido por psicólogos e educadores, para compreender este mundo de violência que podem sofrer meninas e meninos em idade escolar até se transformarem em potenciais assassinos e estrupadores.

Como é difícil para famílias olharem para a desestrutura que existe no seio doméstico. O avô que molesta a mãe, que acaba tendo um marido, que elicia meninas adolescentes, prometendo dinheiro e conforto e passa pela desestrutura do Eu.

Pessoas como o agressor desta tragédia das meninas do rio começam suas vidas com estes tipos de abusos e segue na família se escondendo atrás de um computador ou atrás de atitudes desregradas, como álcool e drogas, fazendo das vítimas de seus abusos a repetição do que sofreram.

Mas a família não dá conta de ver, interferir, corrigir, resolver. Os colegas acobertam seus crimes (e são um cem números de pessoas que acobertam estes crimes). Acobertam ao pai, acobertam aos irmãos, aos maridos, aos vizinhos porque isto uma hora sempre aparece. Não existe esta coisa de que estes segredos ficam totalmente escondidos. Raramente isto acontece. Normalmente eles aparecem, mas as famílias e amigos não vêem.

A sociedade e a imprensa acabam pesquisando com maior profundidade em como o agressor vai buscar a armas e como ele aprende a atirar, do que houve, do que aconteceu com este agressor em seu seio de família. A família não diria que ele sofreu suas primeiras violências no seio da família.

É nesta hora que fazer terapia, que cuidar destes agressores desde os primeiros momentos onde se revelam as primeiras patologias, onde o moleque é pego se masturbando em praças públicas, desrespeitando leis, como dirigindo embriagado, uma infração acometida por quase 100% dos brasileiros jovens adultos, usando da violência nas escolas, usando de drogas ou mesmo se fechando dentro de um quarto e passando a vida atrás de um computador, pesquisando sobre armas…

Este agressor sabia como atirar, dizem os policiais… Então a família sabia que ele praticava tiro em algum lugar. E se não sabia, porque ele mentia, também nunca foi atrás pra ver o que o garoto fazia…

Estas patologias que me chamam atenção como se perpetuam, como se propagam, como não tem correção, como não se coloca na rota de vida, em vez da morte e destruição.

O tratamento psicológico, em casos como este teriam que ser iniciados desde a adolescência. Existe o risco destes agressores se suicidarem ou repetirem as violências sofridas causando mortes e destruições na sociedade. Neste tratamento o psicólogo ao ganhar a confiança destes agressores busca uma saída para estes sofrimentos, fazendo uma resolução das dores sofridas, ou dos modelos perversos, que pais e educadores impetraram em sua criação. Nesta resolução, o conflito é expresso através da consciência desta dor, e dos efeitos que ela provoca no corpo, como a perda da memória, a falta de vontade própria, a desestrutura de vida,  o abuso de drogas, jogos de azar até esportes radicais e manias.

Num processo terapêutico estes possíveis agressores têm a oportunidade de desfazerem destas dores e buscarem novas formas de atuar em suas vidas. Mas isto só acontece quando a família ou amigos se dão conta das complicações que um adolescente passa. A maioria dos agressores se tornam assassinos entre 20 e 30 anos. Atrás deles tem uma história, uma sociedade, um padrão familiar que leva à desestrutura do Eu, desenvolvendo patologias que a família não da conta, não resolve, não ajuda a consertar. Chegando então a dramas onde a cisão com a realidade se forma e o mundo passa a ser o próprio agressor, que o assassino precisa matar.

Se existe uma desestrutura destas na família de pai ou de avô é natural e necessário que se acompanhe estes meninos e meninas que sofrem com este padrão familiar.

Para ajudá-los os pais, irmãos e professores teriam que ser um canal para que eles pudessem falar sobre estas dores que sofreram e aprender a ver outras formas de reagir ao mundo de violência que sofreram. Penso sempre em Maguerite Durás, minha mestra na escrita, apesar de sofrer o abuso dos irmãos e o desamparo da mãe que a jogava em cima do  homem rico, que a deixou para cumprir a decisão da família, escreveu sua história, e com ela ganhou muitos prêmios, revelando estes íntimos foros familiares. Zeilton Feitosa e Louise Ray fizeram o mesmo.

 
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Registered :: Sat Apr 09 00:40:15 UTC 2011
Title :: meninas e meninos do rio/ vítimas de patologias sexuais familiares / Lia Helena
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Autor:

Lia Helena Giannechini Nasceu na cidade de São Paulo, Brasil. Viveu sua primeira infância no Bairro de Santana, residindo em Santos em sua adolescência, onde estudou no Colégio São José, compondo as primeiras poesias, com a influência de J. G. de Araujo Jorge, nos anos 60. A formação humanista, leva a escolha da profissão de psicóloga. Mora atualmente em Piracicaba, realizando um trabalho como Coaching Social e empresarial, donde nasce a experiência para o livro atual. É autora de um livro de contos, Doido, Eu? Editora clube dos autores, 2012, sobre mendigos e andarilhos, diversos artigos sobre psicologia e o Blog www.alemdooceano.wordpress.com, com todas as poesias e artigosque escreveu. Co-autora do livro Poesias Contemporâneas da Editora Matarazzo,de junho de 2016, com duas poesias inscritas. Sua primeira incursão no mundo das poesias. https://www.skoob.com.br/poesias-contemporaneas-ii-605894ed605932.html Foi convidada por Sylvio Rey Reboledoa ministrar os cursos de introdução ao psicodrama, para lideres comunitários em Cali, Colômbia, pela Casa de Justicia de AguaBlanca, onde recebeu o título de cidadã benemérita em Ginebra, Vale delCauca, pelos serviços prestados à comunidade, que a recebeu de braços abertos em 2010. Já ministrou diversos cursos próprios, como Mitologia Pessoal e a Roda do Zodíaco, Além da Extensão da Mente: Oficina de Criatividade, Mitologia Pessoal – oficina de desenvolvimento humano. Oficina de Coordenação e Desenvolvimento de Grupos, Oficina de Criatividade. Trabalhou como consultora de treinamentos, em empresas como Gerdau e Engebrás. É autora de diversos artigos para o Jornal de Piracicaba de 1985 a 1987. Seu trabalho atual como Coaching prepara o jovem adulto para empreender e transformar seu conhecimento em um negócio próprio, além de desenvolver fases para consolidar as carreiras de jovens profissionais. Seu trabalho com escritora desenvolve projetos com equipes da comunidade. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo.

2 comentários em “meninas e meninos do rio/ vítimas de patologias sexuais familiares / Lia Helena

  1. Lia, sugiro que lance esse artigo na mídia, ligue para o Diário do Comércio e Indústria e envie a eles para “publicação”
    Eles são bem receptivos e gratos por artigos dessa competência.
    Esse artigo merece ir para a mídia com o cunho de despertar as pessoas e consequentemente a busca da “cura”. beijos e Parabéns!

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