Publicado em História

Solidariedade/ convivência de vários povos /Lia Helena

  Dunia Zapata,

artista plástica del barrio de San Antonio,

Cali Colombia. Trabaja con personage, que

leva la solidarieda

Solidariedade / como conviver com várias

culturas.

Estou aqui me batendo com um novo paradigma pra mim. E como sempre começo a pensar na evolução da humanidade. Permaneço aqui olhando para uma incompreensão das relações de afetividade, que podem se traduzir em uma imagem de relações homossexuais, quando não há compreensão das manifestações corporais de afetos, marcas de um povo, que transcende às aparências e coloca em primeiro lugar seu calor humano.


Tenho vários amigos e amigas de vários países. Alguns em Portugal, outros na Colômbia, na Finlândia, na Turquia, no Marrocos, na Itália. Sou brasileira, com descendência italiana, francesa, portuguesa e índia.

No Brasil esta mistura de raças fez do povo brasileiro uma das mais ricas culturas que se miscigenaram e deixam esta forte troca de olhares, experiências, culturas, costumes e tradições se combinarem e fazerem novos padrões, criando um movimento cultural e desenvolvimento de um povo, com jeito tão próprio, pra mim único.


Nestas misturas, temos muitos elementos dos negros e no Brasil como na Colômbia também se dança muito. Dança-se, hoje em dia, com a nova geração de moços, o forró universitário, o pagode, nas discotecas os rocks nacionais, nos shows todos os tipos de músicas, o afroreggae, o axé, o funk e tantas outras. Os de meia idade preferem as danças como a gafieira, o xote, o bolero, o samba, o samba-canção, o twist na lembrança dos rocks dos anos 50. São tantos ritmos musicais que se adentram por esta mistura de raças e fazem dos movimentos culturais uma renovação de padrões, de modo de olhar, de dançar, de usar o corpo.

Mas, além disto, o brasileiro tem algo especial. Para mim, que vivo neste país, algo a mais que eu não vejo em outras culturas. O brasileiro, embora tenha um sofrimento intenso de falta de estrutura, ele tem a solidariedade como uma de suas grandes forças. Neste amor ao próximo se inclui o afeto genuíno que se dirige ao outro, que está ao seu lado, ao seu redor ou que esteja precisando de sua ajuda.


Existe uma entrega, uma doação, uma preocupação com o outro, que encontro em muitas pessoas que eu convivo. Não somos um povo que se tranca em casa e vive isolado. Não praticamos com frequência a indiferença. Poucas pessoas vivem neste padrão. A maioria vive em padrões comunitários trocando solidariedade com vizinhos, amigos, parentes, colegas de trabalho, nas associações que frequenta.

A entrega deste amor ao próximo, junto com o abraço fraterno, o beijo de amigo, o acolher corporalmente uma pessoa, tocando seu corpo, tocando as mãos, passando o braço pela cintura e caminhando com o corpo colado, juntos. Um abraço apertado, um dar o ombro pra chorar, abraçando as pessoas que sofrem. Isto vem dos negros. Esta convivência corporal mais aconchegada, com os corpos imbricados em uma dimensão afetiva, que troca seus conteúdos energéticos, fazendo com que as pessoas que sofrem se sintam mais amparadas.

 Dos negros aprendemos o balançar as cadeiras, o falar o que se sente, o deixar sair emoção, o chorar pelos sentimentos, o movimento de liberdade corporal e principalmente este toque. Toque de abraços e beijos, de entrega corporal, que faz do brasileiro um dos povos mais afetivos do mundo. As amas de leite abraçavam e ninavam seus “meninos”, como se fossem seus filhos, com carinho e afeto, que as mães brancas não podiam dar, criando um padrão de aconchego corporal que ficou impresso no jeito do brasileiro ser. As mães de leite criaram na primeira infância o padrão de aconchego corporal que se usa até hoje, como uma das marcas de hospitalidade do brasileiro. Fomos criados na cultura negra. Fomos criados pelas mães de leite do Brasil, e assumimos o que elas têm de melhor: o aconchego.

 Esta liberdade corporal também vem do índio. O índio que vivia na mata, livre, sem amarras sociais, que tomava banhos e banhos em seus quintais de rios caudalosos e tinham esta forma livre de lidar com seu mundo de sensualidade e prazer corporal.

 Mas não só pelo sofrimento o brasileiro se abraça. Ele se abraça pelo afeto. Pelo prazer de ter a companhia do outro. Pelo momento de emoção que brota de um sorriso amigo, de um valor mais forte de estar perto da alma do outro, mesmo que este outro seja uma mulher ou um homem desconhecido. Tocamos-nos com frequência. Não importa se é branco, negro, índio ou qualquer destas misturas. Não temos o preconceito de aproximar do corpo das pessoas. Abraços, beijos e contatos físicos são frequentes em nossa cultura.

Entregamo-nos a um tipo de intimidade corporal que poucos povos têm. Sorrimos com frequência, nos damos às mãos, nos tocamos, nos fazemos presentes dentro do universo corporal do outro.


Fomos ensinados pelos portugueses a termos regras sociais para falar, para comer, para sentar. Mas transcendemos a isto pela solidariedade. Transformamos padrões de etiquetas em aconchego, em aproximação afetiva. Substituímos as regras por interação afetiva.

 Nos cursos que eu dou, ao final, sempre brota uma emoção e a necessidade do abraço coletivo se faz presente, deixando as regras de etiqueta e substituindo por estes encontros de energia que fluem dos corpos, que transpassam a barreira da intimidade do outro levando carinho, aconchego e acolhimento.

 

Isto é visto por outros povos como um desvio sexual. Abraçar de mulher para mulher em alguns países como o oriente tem sempre uma conotação sexual. É visto como homossexualidade. Porque tocamos nossos amigos e amigas. Porque nos damos abraços, porque tocamos os corpos.

Com mais esta incompreensão fico me perguntando. O Brasil, com este território imenso, cheio de diversidades, que acolhe tantos povos, inclusive os do lado oriental. Que acolhe aos turcos, aos japoneses, aos chineses, aos árabes, e aqui eles fazem a vida, ganham dinheiro, educam seus filhos e convivem com esta miscigenação. Quem nunca esteve aqui é muito difícil de compreender. Os países em suas culturas separatistas vêm para o Brasil e tem que aprender a conviver com esta mistura.

Sou bisneta de italianos. E meu pai e avós não gostavam de negros, nem de japoneses. Então quando eu tinha um namorado que era mulato, meu pai me xingava. Porque não era homem pra mim. Mas como sempre a rebelde os deixava falando sozinhos e ia lá conhecer as pessoas que me agradavam burlando as regras destas discriminações. Entrando em suas casas, abraçando e beijando seus familiares, encontrando com estes amigos em praças públicas e mesmo sendo reprimida por isto, não ligava pras besteiras que meu pai tinha na cabeça. Porque eram besteiras de discriminações. Se eu beijava minha irmã, porque não beijaria um amigo negro? Porque não entraria em sua casa e tomaria café com sua mãe e abraçaria sua irmã, seus sobrinhos?

Pra mim não cabia esta separação. Como eu, milhares de brasileiros deixaram suas marcas de padrões europeus, para entrar na cultura negra, e criar este novo padrão de aconchego e solidariedade. Sair da indiferença e tentar a compreensão de novos padrões, a assimilação de outros modelos culturais, faz um povo ter espontaneidade em sua evolução. Ele se obriga a viver com novos padrões, e a experimentar fazer igual ao outro, traduzindo para si novos jeitos de se levar a vida, com novos sentimentos, novas formas de lidar com o cotidiano e troca. Muda seu jeito, para trazer do outro, incorporar outras formas. Isto o obriga a sair da indiferença e conhecer o outro, experimentar o outro.

Aconchego corporal, beijos e abraços significam muito mais do que tesão para os brasileiros. Significa o corpo que acolhe a alma, que ao seu lado está, e se insere numa dimensão afetiva, uma dimensão de intimidade que chega além dos olhos e faz tremer de emoção pelo encontro, encanto da alma que se preenche dos vazios em trocas de aconchegos corporais.

Outros povos vêm isto como homossexualidades. Que para nós nada tem haver com a sexualidade. Crescemos livres destes preconceitos. Crescemos encontrando com amigas em nossos quartos, tomando banhos juntas, trocando de roupas umas na frente das outras, descobrindo as sexualidades com os homens e contando para nossas amigas, para ver como era para elas. E as conversas de mulher pra mulher chegam a intimidades que os outros povos não têm.

Por isto temos solidariedade. Porque transpassamos os limites das conservas culturais, das tradições familiares e rompemos com o que poderia nos engessar como pessoas humanas, e abrimos as portas de nossos corações para novas forças como a solidariedade humana.

Na Colômbia, um dos grandes aprendizados para mim, foi ver o que falta para aquele povo. Percebi que sua deficiência era a abertura do coração para esta solidariedade que se encontra nos contatos afetivos. Eles têm muita perna, muito braço, muita luta e pouco coração pra se aconchegar uns aos outros. No Workshop de Aguablanca um tema que chegou a dramatização de um protagonista foi à violência e suas raízes na indiferença, na insegurança e na falta de amor. Ao final a platéia comemorou a possibilidade de ver um drama que começa na escola, com a transgressão de um menino, chegar à família e seus dramas que se repetem nas inseguranças e medos. E nesta falta de amor, significando indiferença pelos sentimentos dos que carregam as estrutura da família.

E como introduzir num povo esta capacidade de dar amor, de se achegar ao mundo do outro, trocando de papel, olhando-se no espelho ou mesmo emergindo de seus sentimentos?

O ensino do Psicodrama, num país como a Colômbia, ou em outros países, pode trazer aquilo que o brasileiro já conquistou. A solidariedade efetiva, que sai de um corpo e chega ao outro para acolhê-lo em sua alma, em sua troca mais profunda. O Psicodrama tem em sua essência a filosofia do encontro. Onde aprendemos a trocar nosso olhar pelo do outro e olhar a partir de suas convicções, seus costumes, suas tradições. A aprender a emprestar ao outro seu olhar e pela troca, poder lhe dar novas perspectiva de ser e de viver.

Na socionomia, quando ela contempla os vários atores dos dramas sociais e dá a estas vozes a chance de emergir como uma escolha, co-inconsciente, que atua entre os membros de uma família, ou de um drama, delatando ás inconsistências de ser e sentir, vão propiciando através de um sociodrama, ou psicodrama, a leitura de novos padrões a serem incorporados.

Países vão ter que passar por muita luta, muita guerra, muitas mortes ainda, para aprender a ficar do lado da alma, como o brasileiro aprendeu a ter:

A Solidariedade humana.

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Title :: Solidariedade/ convivência de vários povos /Lia Helena
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Autor:

Lia Helena Giannechini Nasceu na cidade de São Paulo, Brasil. Viveu sua primeira infância no Bairro de Santana, residindo em Santos em sua adolescência, onde estudou no Colégio São José, compondo as primeiras poesias, com a influência de J. G. de Araujo Jorge, nos anos 60. A formação humanista, leva a escolha da profissão de psicóloga. Mora atualmente em Piracicaba, realizando um trabalho como Coaching Social e empresarial, donde nasce a experiência para o livro atual. É autora de um livro de contos, Doido, Eu? Editora clube dos autores, 2012, sobre mendigos e andarilhos, diversos artigos sobre psicologia e o Blog www.alemdooceano.wordpress.com, com todas as poesias e artigosque escreveu. Co-autora do livro Poesias Contemporâneas da Editora Matarazzo,de junho de 2016, com duas poesias inscritas. Sua primeira incursão no mundo das poesias. https://www.skoob.com.br/poesias-contemporaneas-ii-605894ed605932.html Foi convidada por Sylvio Rey Reboledoa ministrar os cursos de introdução ao psicodrama, para lideres comunitários em Cali, Colômbia, pela Casa de Justicia de AguaBlanca, onde recebeu o título de cidadã benemérita em Ginebra, Vale delCauca, pelos serviços prestados à comunidade, que a recebeu de braços abertos em 2010. Já ministrou diversos cursos próprios, como Mitologia Pessoal e a Roda do Zodíaco, Além da Extensão da Mente: Oficina de Criatividade, Mitologia Pessoal – oficina de desenvolvimento humano. Oficina de Coordenação e Desenvolvimento de Grupos, Oficina de Criatividade. Trabalhou como consultora de treinamentos, em empresas como Gerdau e Engebrás. É autora de diversos artigos para o Jornal de Piracicaba de 1985 a 1987. Seu trabalho atual como Coaching prepara o jovem adulto para empreender e transformar seu conhecimento em um negócio próprio, além de desenvolver fases para consolidar as carreiras de jovens profissionais. Seu trabalho com escritora desenvolve projetos com equipes da comunidade. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo.

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