Publicado em Uncategorized

Reinações de Nina no mundo da imaginação

Capítulo VI

A sombra e seus efeitos

          Silvio acorda de madrugada. Remexe em sua cama, com a sensação esquisita de que algo vai acontecer. Teve um sonho que o perturbara muito. A sensação de esquisitice o acompanhou durante algum tempo mesmo depois de desperto. Não que o sonho tenha sido ruim, ao contrário tinha sido salvo de um acidente por um anjo, e isto era muito diferente de tudo o que havia sonhado até hoje. Esquisito por demais, para ser verdade.

         No sonho ele percorria a via expressa CR 23, saindo de sua casa no bairro de Aranjuez, ia para a Universidade dar aulas. Sabia que a Dra. Carol estaria dando aulas também, mas não poderia estar com ela em seu curso, o que o deixava abatido. No sonho, entrava na Universidade e sentia-se triste, ao entrar pela porta da faculdade, sabendo que Carol estaria no anfiteatro e ele também em sua classe. Estariam juntos, mas a distância de estar no mesmo local, em salas de aulas, separados, fazia com que se sentisse muito mal. Uma angustia o dominava. Ele tentava depois da aula ir vê-la, mas ela não podia atendê-lo, porque estava conversando com seus alunos, e ele não poderia esperá-la. Os compromissos com faculdade o chamavam para uma reunião com o diretor. No sonho, o diretor o recebia amavelmente, em seu gabinete, pedindo para sentar-se à mesa de reuniões, para debater os projetos do ano que vem. Ele não dizia, mas ano que vem ele queria estar no Brasil, com Carol, fazendo uma pós-graduação. Ainda não era tempo de pedir afastamento, para a pós. Tudo no sonho era muito real. A sala, a conversa, o espaço, o diretor.

          Saía da conversa com uma angústia muito grande, e ia para casa novamente, como se alguém quisesse tirar Carol de seu caminho. No sonho ao cruzar a Via Expressa CL 70, seu carro era atropelado por um ônibus desgovernado, que saía de uma pista para a outra. Aparecia em seu sonho um anjo vestido de branco, que o salvava, tirando-o das ferragens do carro e levando-o para longe daquele lugar. O anjo o colocava no colo, e o transportava para um lugar muito lindo à beira de um rio, com uma cachoeira, que descia um salto, e que visto de cima era um lugar maravilhoso. A cidade em volta do rio deixava espaço para a queda d’água seguir seu curso, serpenteando a beira do rio, ladeado de casas baixas e construções antigas, com grandes chaminés. A batida agora já nem importava mais, mesmo machucado, ele sentia muito prazer de descer neste lugar. O anjo o colocava nas margens do rio, perto de uma ponte levadiça, feito pontes antigas, com cabo de aço, segurando a passarela de madeira, ele dizia tchau ao anjo, abanando as mãos e seguia pela ponte para o outro lado, saindo num engenho antigo. Agora ele percebia que estava sangrando, e pedia para algumas pessoas que o ajudassem, mas eles não compreendiam sua língua, porém ele confiava nas pessoas. Estavam no celular chamando uma ambulância, para levá-lo ao hospital. A ambulância chegava, ele era colocado numa maca, e depois transportado com uma sirene ligada. Parecia que seu caso era grave, e ele tentava ajudar, ao máximo que podia. Colocavam um soro em seu braço, pois estava perdendo muito sangue, mas ele não conseguia saber onde eram seus ferimentos.

              Acordava numa casa muito linda, a beira de um rio cheio de pássaros, algumas maritacas fazendo barulho em sua janela, onde deixava comida de noite para elas comerem de manhã. Tudo era muito diferente de seu país, mas era muito bom!!!! Seus ferimentos já estavam cicatrizados e ele saia para caminhar pela beira do rio.

         Ao sair de casa Silvio permanecia com a sensação esquisita!!!

         Ao passar pela Via expressa, estava feliz porque iria encontrar Carol, mas sabia que não iria falar com ela naquele dia até a noite. As sensações de alegria e de angústia permaneciam lado a lado, queria poder estar com ela o dia todo, como num porto seguro, onde ele pudesse aportar, mas sabia que não era possível e isto de alguma forma acabava por trazer um sentimento de agonia. Ele sabia que podia perder o tesouro que ele via em sua mão.

         Pensava fantasiando sua ida ao Brasil. Como seria viver num país estranho, como seriam os brasileiros? Como eles vivem? Como é a justiça, a educação? Tem diferenças? Precisava ver as leis do Brasil.

         Nesta hora, um ônibus está vindo à sua frente, e ele não consegue desviar. O ônibus vem rolando de lado, atravessa o canteiro central e vai de encontro ao seu carro, pela lateral direita. Tudo acontece num piscar de olhos, mas ele sente que tem uma força maior que o guia para ir mais lento, desacelerando com tudo, desde o primeiro movimento percebido. Algo inexplicável. Ele sabia o que era preciso fazer. O ônibus bate na lateral traseira do seu carro, como num milagre. Se tivesse mais rápido teria batido de frente. Aqueles segundos desacelerando foram cruciais, mas ele desmaia e não vê mais nada…

           Dra Carol chega às aula hoje, completamente transtornada. Conta o acontecido. Silvio teve um acidente. Um ônibus atravessou a via expressa CL 70, perto de Barranquilla, quando Silvio transitava ali, bateu na mureta, e acabou acertando o carro dele. Ele estava agora no hospital, fazendo os exames, para ver se não havia fraturas. Ela estava nervosa, pois sabia que ninguém o tinha acompanhado. Os policiais o haviam socorrido, e levado para o Hospital Universitario de San Jose, Fundación Universitaria de Ciencias de la Salud – FUCS – Ela estava dizendo a todos que a aula seria curta, pois queria ir lá ficar com ele.

            Os alunos a preveniram.

            – “Não adianta a senhora ir lá agora, pois não vai poder entrar. Eles não deixam ninguém ficar nas salas de exames. Só depois que o paciente faz todos os exames é que a família pode ter acesso ao paciente”, fala um dos alunos.

           – “Ai, como vocês fazem isto?” Lá no Brasil, todo mundo sai correndo, e acompanha tudo o que está sendo feito, mesmo se está em outra cidade”. Os policiais ficam juntos, e vão participando o que está sendo feito, até a família chegar. Existe uma entidade AutoBan chamada carinhosamente pela população de “anjos do asfalto” que presta socorro às vítimas com todo o cuidado, transportando em ambulâncias os feridos, e tomando as providências dos primeiros socorros. Um policial vai junto até o hospital e presta todo o socorro como se fosse da família. Acompanha os exames, pede ao médico as explicações necessárias, vai informando à família, e toma as primeiras providências para o atendimento, pegando os documentos, guardando os pertences.

          Carol conta de seu acidente, um pouco antes de vir a Cali.

          -“Tive um acidente antes de vir para Cali. Estava num ônibus, vindo de Piracicaba (interior de São Paulo) para São Paulo (capital). E  na entrada da marginal, como é de costume todo o trânsito estava parado. Resolvi ir ao banheiro do ônibus, porque sabia que levaria tempo para chegar à rodoviária. E quando voltava o ônibus fez uma freada brusca, e eu não vi mais nada. Acordei com o policial fazendo carinho no meu rosto. Estava com a cara no degrau da escada de entrada do ônibus. Até hoje não sei como fui parar ali. O policial me perguntava quem eu era, meu nome,  o que fazia, e eu não conseguia lembrar-me de imediato de tudo. Ele foi conversando comigo, fazendo-me lembrar onde eu estava e o que tinha acontecido”.

           -“Foi algum tempo de tensão até eu me lembrar de tudo. Tinha batido o queixo e também a cabeça. Estava sangrando. Quando a ambulância chegou, eles não conseguiam me levantar na maca, e eu tive que sair da escada andando, mas eu sabia que precisava de ajuda, eles logo me puseram na maca, prenderam meu pescoço, depois me colocaram na ambulância. O policial foi de uma delicadeza comigo, sem par”.

           -“No hospital acompanharam todos os procedimentos. Fui levada a uma sala de cirurgia, onde o médico me costurou, conversando comigo. Fizeram a radiografia de todo o corpo para ver se não tinha quebrado nada. E tudo parecia em ordem. Os médicos me deram alta, quando perceberam que não havia maiores consequências. Deram-me alguns analgésicos, esperei minha família chegar, para me levar a cidade que eu morava”.

          -“O susto foi grande, mas acho que os serviços de ajuda aos acidentados, fez muita diferença, fazendo com que eu me sentisse amparada, acolhida, atendida, mesmo sendo em um hospital público. Agradeço ao cabo Leomar e ao Buono, que pra mim foram Anjos do Asfalto, em toda a sua acepção. Na hora, foram pessoas, gente humana,  que me socorreram, ajudaram-me em tudo o que eu precisava. Avisando meus familiares, levando-me ao pronto socorro, cuidando dos meus pertences e me acompanhando até uma pessoa da família chegar!!!”

           Agora os alunos começam a entender a grande preocupação de Carol.

           -“A sombra, e o anjo, são arquétipos que ao entrarmos em contato, produzem grandes transformações em nossa vida, causando revoluções. Eles aparecem em sonhos e mostram os caminhos que já tomamos em nossas decisões, sem saber o que realmente optamos. As nossas escolhas são inconsciente, fazem parte de um arsenal ancestral que carregamos e nos fazem eleger coisas que mais tarde na vivência temos a noção”.

           Silvio estava deitado num quarto de hospital, com o braço e a cabeça enfaixados.  Em dias anteriores tinha resolvido falar com Carol, sobre a possibilidade deles namorarem. Agora quando a viu teve mais certeza ainda do que queria para sua vida!!! Suas dúvidas começaram a esmorecer (???), e sua vontade de ficar perto dela, cada dia mais importante. Era tudo o que ele queria neste momento. Ficar com ela. Não tinha planejado o acidente, mas sentia que este momento seria especial.

           Ela chegou com um sorriso aberto, cheia de preocupação com ele. Disse logo de cara:

            -“Acabei a aula mais cedo e vim correndo”.

            -“Ai que bom que você está aqui”. Sua emoção era visível, com os olhos marejados, seu olhar apaixonado.

           -Ai, Silvio, desde que eu cheguei aqui, você tem sido um grande companheiro. Gosto muito de você.

            -Depois que você chegou aqui eu fiz uma revolução na minha vida. Já não penso só no trabalho, ou nos alunos. Penso em você.

             -Mas não quero te emocionar agora, Silvio, vamos conversar disto mais tarde. O importante é que você está bem!!

             – “O médico me disse que vou ter que ficar com o gesso um mês. Quebrou  dois dedos na pancada, mas depois fica tudo bem de novo.

             -“Ichi (esta era uma expressão dela, para coisas complicadas, difíceis de se resolverem), mas como vão ficar suas aulas?”

           – “Neste momento só penso em você. Depois pensarei nas aulas, como vamos fazer.

            Nesta hora percebe que todo aquele desespero pela manhã, vai se dissipando, como se ele estivesse fazendo agora a coisa certa. Nunca havia pensado que uma mulher teria este poder. Deixá-lo sem angústia. Era tudo muito diferente de tudo o que ele havia vivido antes. Não que isto não já tivesse acontecido, mas agora sua consciência tinha ficado mais clara com todo o processo. Como se nunca tivesse dado valor ao que vinha de dentro dele e agora tinha muita importância. Algo que aconteceu após o acidente, o sonho, e a angústia que sentiu. Mas falando com Carol, percebia que isto já estava acontecendo há certo tempo, e relacionou com todo o processo da imaginação ativa que vinha participando.

             -“Carol, eu estava me sentindo angustiado de manhã, e agora com sua presença aqui, parece que toda ansiedade passou. Isto tem haver com alguma coisa que estamos fazendo no trabalho da imaginação ativa?”

              -“Claro que sim, Silvio, mas isto não é hora da gente discutir psicologia. Estou aqui pra te dar apoio”. Ela pega em sua mão e beija com carinho.

             -“Ele sente que não pode perder nada deste momento, e resolve se entregar de corpo e alma a tudo o que está acontecendo naquela situação, Deixa as perguntas de lado e se põe a deixar rolar o carinho que agora ele percebe que tem com Carol”.

             Ela fica feliz e se entrega também. Eles ficam num chamego só. Tocam-se as mãos, ela faz carinho no rosto dele. Ele pede que ela fique perto. Os dois sentem a mudança da respiração. Como se acalmasse tudo o que eles tinham de ansiedade. Olham-se demoradamente, como se o tempo não existisse mais lá fora. E tudo parece perfeito neste momento, apesar da dor, do hospital. Agora nada mais importa.

Lia Helena Giannechini, escritora, poeta, psicóloga, psicodramatista.

Anúncios

Autor:

Lia Helena Giannechini Nasceu na cidade de São Paulo, Brasil. Viveu sua primeira infância no Bairro de Santana, residindo em Santos em sua adolescência, onde estudou no Colégio São José, compondo as primeiras poesias, com a influência de J. G. de Araujo Jorge, nos anos 60. A formação humanista, leva a escolha da profissão de psicóloga. Mora atualmente em Piracicaba, realizando um trabalho como Coaching Social e empresarial, donde nasce a experiência para o livro atual. É autora de um livro de contos, Doido, Eu? Editora clube dos autores, 2012, sobre mendigos e andarilhos, diversos artigos sobre psicologia e o Blog www.alemdooceano.wordpress.com, com todas as poesias e artigosque escreveu. Co-autora do livro Poesias Contemporâneas da Editora Matarazzo,de junho de 2016, com duas poesias inscritas. Sua primeira incursão no mundo das poesias. https://www.skoob.com.br/poesias-contemporaneas-ii-605894ed605932.html Foi convidada por Sylvio Rey Reboledoa ministrar os cursos de introdução ao psicodrama, para lideres comunitários em Cali, Colômbia, pela Casa de Justicia de AguaBlanca, onde recebeu o título de cidadã benemérita em Ginebra, Vale delCauca, pelos serviços prestados à comunidade, que a recebeu de braços abertos em 2010. Já ministrou diversos cursos próprios, como Mitologia Pessoal e a Roda do Zodíaco, Além da Extensão da Mente: Oficina de Criatividade, Mitologia Pessoal – oficina de desenvolvimento humano. Oficina de Coordenação e Desenvolvimento de Grupos, Oficina de Criatividade. Trabalhou como consultora de treinamentos, em empresas como Gerdau e Engebrás. É autora de diversos artigos para o Jornal de Piracicaba de 1985 a 1987. Seu trabalho atual como Coaching prepara o jovem adulto para empreender e transformar seu conhecimento em um negócio próprio, além de desenvolver fases para consolidar as carreiras de jovens profissionais. Seu trabalho com escritora desenvolve projetos com equipes da comunidade. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s