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Uma visão inesquecível/ Faganello

A visão inesquecível

“La vida es sueño, e los sueños, sueños son” (Calderon de la Barca).

Acordou cedinho. Estava uma manhã muito fria. Teve um pressentimento muito vago, uma sensação indefinida, o que seria?

Normalmente tinha bom apetite. Seu café da manhã foi rápido, quase não comeu nada. A ansiedade tirava-lhe a fome. Assistiu às aulas no mundo da lua. Sequer saberia dizer quais foram as daquela teve naquela manhã. Quase não almoçou. Tão ansioso estava, que resolveu espairecer.

Pegou a vara de pescar e, com o enxadão, cavou o suficiente para conseguir as iscas necessárias. Foi pescar com o coração pesado e semblante triste. Era um riachinho de águas muito límpidas. Praticamente, ali não havia poluição alguma. Sentindo sede pela caminhada, cortou uma folha de taioba, fazendo dela uma taça e bebeu com sofreguidão a água límpida e gelada. Ela descia direto de serra.

 A margem esquerda, onde pescava, não pegou um peixe sequer. Atravessou por sobre as pedras para o outro lado. Ali ficou quieto, tentando melhor sorte. Definitivamente não era seu dia – dois lambaris, dois mandis e um cará foram sua mísera safra.

Se os peixes nada queriam com ele, em contrapartida, a indefinível sensação não o abandona.

Foi então que aconteceu: surgida do nada, de uma beleza biscuí, ela apareceu, aparição celestial. Não demonstrou ter pressentido sua presença, apenas ficou estático, observando o outro lado do riacho com a respiração suspensa.

Ela, mão em concha, agachou-se e sorveu a água cristalina, com indisfarçável prazer. Ao erguer os olhos, sentiu os dele. Corou levemente e teve um estremecimento de medo. Ele continuou imóvel, fascinado e esforçando-se para disfarçar um incontido tremor que começava a sacudi-lo. E, assim, como surgiu, ela, deslizando imperceptivelmente, desapareceu.

Demorou em acreditar que ali, ela não mais estava. O desapontamento foi como se algo desabasse em seu íntimo. Jogou sua risível pescaria de volta às águas e, sem o cuidado anterior, novamente por sobre as pedras lisas, voltou à margem onde antes estivera e ela havia aparecido.

 Não conseguiu vislumbrar seu rastro, mas teve a sensação de sentir um perfume inebriante, o perfume que, com certeza, ela espalhava pelos caminhos que percorria. Depois de demorada busca nada achou.

Nunca mais acordou com aquele pressentimento. Voltou muitas  vezes para pescar naquele lugar. Jamais ela reapareceu, mas, talvez fruto de sua imaginação, aquele perfume, de quando em quando, o envolvia e reacendia nele as emoções daquela tarde.

 Para consolar-se, relia os versos de Vicente de Carvalho:

“Essa felicidade que supomos/

 Árvore milagrosa que sonhamos./

 Toda arreada de dourados pomos/

 Existe sim; mas nós não a alcançamos,/

Porque está sempre apenas onde a pomos,/

E nunca a pomos onde nós estamos”.

José Faganello,  educador, professor de história, escritor do jornal de Piracicaba, escreve aos domingos na sessão opinião 

jfagao@gmail.com

www.jornaldepiracicaba.com.br

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Autor:

Lia Helena Giannechini Nasceu na cidade de São Paulo, Brasil. Viveu sua primeira infância no Bairro de Santana, residindo em Santos em sua adolescência, onde estudou no Colégio São José, compondo as primeiras poesias, com a influência de J. G. de Araujo Jorge, nos anos 60. A formação humanista, leva a escolha da profissão de psicóloga. Mora atualmente em Piracicaba, realizando um trabalho como Coaching Social e empresarial, donde nasce a experiência para o livro atual. É autora de um livro de contos, Doido, Eu? Editora clube dos autores, 2012, sobre mendigos e andarilhos, diversos artigos sobre psicologia e o Blog www.alemdooceano.wordpress.com, com todas as poesias e artigosque escreveu. Co-autora do livro Poesias Contemporâneas da Editora Matarazzo,de junho de 2016, com duas poesias inscritas. Sua primeira incursão no mundo das poesias. https://www.skoob.com.br/poesias-contemporaneas-ii-605894ed605932.html Foi convidada por Sylvio Rey Reboledoa ministrar os cursos de introdução ao psicodrama, para lideres comunitários em Cali, Colômbia, pela Casa de Justicia de AguaBlanca, onde recebeu o título de cidadã benemérita em Ginebra, Vale delCauca, pelos serviços prestados à comunidade, que a recebeu de braços abertos em 2010. Já ministrou diversos cursos próprios, como Mitologia Pessoal e a Roda do Zodíaco, Além da Extensão da Mente: Oficina de Criatividade, Mitologia Pessoal – oficina de desenvolvimento humano. Oficina de Coordenação e Desenvolvimento de Grupos, Oficina de Criatividade. Trabalhou como consultora de treinamentos, em empresas como Gerdau e Engebrás. É autora de diversos artigos para o Jornal de Piracicaba de 1985 a 1987. Seu trabalho atual como Coaching prepara o jovem adulto para empreender e transformar seu conhecimento em um negócio próprio, além de desenvolver fases para consolidar as carreiras de jovens profissionais. Seu trabalho com escritora desenvolve projetos com equipes da comunidade. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo. Atualmente faz parte do clube caiubi de compositores, onde alguns parceiros musicam suas poesias, transformando a experiência de letrista, em um processo novo e criativo.

5 comentários em “Uma visão inesquecível/ Faganello

  1. Gabriel, tenho um amigo que toca muito bem flauta doce, mas vive mel humorado e, quando se apresenta em um conjunto do qual, as vezes faz parte, não admite conversa durante suas apresentações.Ao se apresentar em um almoço informal, após muito comes e bebes e longa apresentação dos músicos, a conversa corria solta. Ele, zangado, parou de tocar e veio, próximo de onde eu estava e começou a guardar sua flauta na caixa. Uma menininha, com toda sua inocência perguntou-lhe: ” Como se chama este instrumentinho? ” Ele deu-lhe uma resposta muito malcriada, que me espantou. Lembrei-me deste fato ao ler seu elogioso comentário sobre minha “historinha”. Percebi que o diminutivo denta carinho. Obrigado.

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  2. Gabriel, tenho um amigo que toca muito bem flauta doce, mas vive mel humorado e, quando se apresenta em um conjunto do qual, as vezes faz parte, não admite conversa durante suas apresentações.Ao se apresentar em um almoço informal, após muito comes e bebes e longa apresentação dos músicos, a conversa corria solta. Ele, zangado, parou de tocar e veio, próximo de onde eu estava e começou a guardar sua flauta na caixa. Uma menininha, com toda sua inocência perguntou-lhe: ” Como se chama este instrumentinho? ” Ele deu-lhe uma resposta muito malcriada, que me espantou. Lembrei-me deste fato ao ler seu elogioso comentário sobre minha “historinha”. Percebi que o diminutivo denota carinho. Obrigado.

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  3. Foi o que deduzi. O diminutivo, no Brasi é usado em família como carinhoso, caso contrário, normalmente é depreciativo. COMO disse antes, considerei seu artiguinho, como carinhoso. Obrigado, não se preocupe, pois tenho ótimas referências de você através da LIA.

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