Capítulo 11/ A conversa sobre a família/ Sozinho no Mundo

Num jardim à beira de um dos centros de recuperação…

− Vocês têm memória de tudo? Pergunta Arthur para Yndit nesse passeio.

− Sim, temos. Tudo é registrado nesses hologramas que você acessa quando pensa em algum assunto.

− Vêm qualquer informação que você queira aprender ou saber?

− Sim, claro, o conhecimento está disponível para toda pessoa que queira saber sobre algum assunto. É só acessar pela memória.

− Vocês tem família? Arthur tem muita curiosidade de saber como eles vivem. E com o passeio, ele está aprendendo como é a vida desse povo do futuro. Ele já tem, até, um apelido para eles, em sua cabeça: sossego de gente

− Yndit dá risada do pensamento e sorri para ele. Você é engraçado.

− Esqueço que você está dentro da minha cabeça.

− Vou te responder a pergunta sobre a família. Temos nosso grupo familiar, contudo as relações são bem diferente do seu tempo.

− Eu não vejo vocês juntos.

− Quando estamos fazendo algum tipo de atividade as crianças sempre acompanham seus pais, contudo isso é feito nas florestas e acampamentos, em atividades isoladas dos demais, por isso você não os vê, responde Yndit.

− Onde os filhos estudam?

− Muito diferente de sua época, as crianças ficam com os pais. É implantado um holograma para cada estágio, até completarem a vida adulta. E, nessa época eles escolhem entre fazer o seu próprio Clã, em um espaço próprio. Ou participam de um lugar próprio dado pelos pais em seu Clã de origem.

− Enquanto crescem quê atividades eles fazem?

− Todas as que seus pais fazem, nas tarefas do dia. Mas, não temos muitas tarefas para fazer, então, ficamos aproveitando a boa vida, passeando, nadando, caminhando, colhendo frutas, castanhas, cogumelos na floresta de nossos arredores.

− Mas, os pais não trabalham?

− Cuidam de sua casa, de doações que fazem nos centros de estudos e recuperação, para obter a energia que precisam. Contudo, isso é uma parte pequena do dia. Duas a três horas é suficiente, para terem energia para semana toda.

− Você trabalha muito mais do que isso, comigo e com os outros, que estão em recuperação.

− Tenho muita energia, por isso preciso doar mais do que a maioria das pessoas. As crianças acumulam a potência necessária em cada estágio, para quando forem adultas utilizarem na construção dos seus apetrechos de vida.

− E as festas como são? As crianças participam também?

− É tudo muito diferente de sua época Arthur. As crianças estão sempre com seus pais. Elas participam de tudo o que eles fazem. Mas, nosso tipo de encontro é distinto dos que existiam em sua época. Os valores, de hoje, são diferenciados. Você vai entender melhor quando formar sua família aqui. Suas regras prevalecem e seu jeito determina como as pessoas chegam perto de você.

 − Tudo isso é tão estranho. E o que os pais fazem quando ficam velhos?

  − Não temos velhos, como era na sua época.

  − Como são?

 − Eles participam de tudo e recebem a força que precisam sempre.

− E quando encontram?

− Não existe barreiras como as que você tinha com sua mãe, porque o pensamento é livre e tudo o que se pensa passa para todos os que estão perto de você. Eles cantam, dançam, passeiam, tomam banho de rio, de cachoeiras.

− Vocês jogam futebol?

− Não existe esportes.

− Que mundo chato o de vocês!

− O seu era muito mais chato. Você vivia entediado. Uma das razões de sua doença. Aqui todo mundo vive bem. Ninguém é obrigado a nada. Só fazem o que querem.

 − E quando são crianças?

 − Também fazem o que querem, aprendem o que querem! Aprendem a guardar energia para construir suas coisas, quando forem grandes. Então, são acostumados a trocar tarefas desde pequenos, para garantir sua força subindo sempre. Porém, só fazem quando querem.

 − Não consigo entender como não ficam preguiçosos e indolentes.

 − Eles acompanham os pais no dia a dia. Caminham pelas florestas, correm, nadam, velejam, remam, mergulham, caçam peixes, saltam, pulam. Não dá tempo de ser ocioso quando se vive completamente livre. Todo mundo se mantém ativo o dia inteiro.

  − E quando se enamoram?

 − É tudo muito diferente de seu tempo. As pessoas não tem amarras. São livres para experimentarem o que gostam.

 − Então, eles tem várias namoradas?

 − Eles convivem com algumas garotas que percebem ter afinidades. Ficam juntos por um tempo e se gostam casam para a vida toda, constituindo um clã.

 − Tem gente que fica sozinho?

 − Sim, claro. Muitas pessoas, como eu, tem energia muito alta. Não conseguiriam ficar em uma família, dedicar-se só a eles. Então se ocupam nos centros de conhecimentos e doam sua energia para eles.

 − Você nunca se apaixonou?

 − Eu, já. Contudo, achamos melhor que eu tivesse mais liberdade. Pescar e estar com a família não é meu jeito de ser. Gosto do contato com mais pessoas. Ele ficaria ressentido com meu estilo de vida. Por isso achamos melhor não casarmos.

 − Mas, você não quis ter filhos? Não sente falta de ter um homem do seu lado?

 − Tudo o que fazemos aqui nos deixa muito preenchidos. Criar filhos ou doar energia, tem o mesmo valor. Uma coisa não é mais importante que a outra. No seu tempo, os valores determinavam o que as pessoas sentiam. Agora, não é mais assim. Quem faz o que gosta nunca fica vazio. Está sempre muito bem. Se sentir falta de outra coisa é só ir em busca daquilo que quer. É simples assim.

 − Você está dando um nó na minha cabeça. Não sei como vou conviver com isso.

 − Não se esqueça de que os hologramas foram implantados e você terá que acessá-los, para descobrir. Mas, tudo é simples.

 − Onde vou morar?

 − Na hora certa terá energia suficiente para construir o que quiser. Você terá um bônus, porque foi transportado para cá, para termos acesso a cura de sua doença, na prática.

 − É, você já me falou disso. Mas, ainda quero saber mais sobre a família.

 − Já te contei quase tudo.

  − Não existe violência?

 − Não, imagina!!! Isso é coisa do passado. As pessoas são muito resolvidas, hoje em dia. Elas sabem quando querem e se entregam, se isso acontece.

− Quero ver meu futuro, diz Arthur muito pensativo. É tudo tão diferente.

 − Você ainda não tem esse holograma. Terá quando completar as etapas de construção de potência. E acessar o futuro, nem sempre te diz qual é a melhor escolha. Você poderá fazer muitos caminhos e, cada um deles terá um futuro.

 − Isso é muito louco Yndit, sabia?

 − Você irá se acostumar. Tudo é muito recente, ainda.

 − O que eu posso fazer por vocês?

 − Já está fazendo, Arthur. Alguns testes serão pedidos a você. Mas, vão acontecer muito rapidamente. Seu defeito genético já foi corrigido. Porém precisamos saber se você fica bem.

 − Eu me sinto ótimo. Acabou a pressão que eu tinha constante.

 − Eu vejo que sim! Mas, terá que conviver comigo por um tempo, para que eu te observe. Sua irritação com a vida era provocada pela sua doença. Esse enfado, esse “saco cheio”, significa uma energia sendo desperdiçada, pelo seu corpo. Então, ele reagia, avisando a você, que ele precisava de mais descanso, mais bem-estar. Um dos estopins da sua doenças foi o estresse da faculdade.

 − É, eu não gostava, nem um pouco, daquelas aulas chatas de marketing. Gosto mais da internet e dos programas do que das estratégia de mercado.

 − Aqui você não vai precisar de nada disso. Não temos negócios. Tudo se baseia na troca de energia. Não temos dinheiro, nem empresas. Tem gente que se dedica ao centro de experiências novas, onde coisas inovadoras são fabricadas. Mas, como precisamos de muito pouco para viver, essas experiências são sempre voltadas para conservar nossas coisas atuais.

 − É, talvez eu sirva pra essas coisas. Coisas de cura, não é comigo.

 − Talvez você se surpreenda, quando tiver com todos os hologramas em seu poder. E se quiser fazer outra coisa quando estiver num centro é só avisar para trocar.

 − Mas, tem centro que acaba ficando sem gente para ajudar?

 − Quase nunca ocorre isso. Porém, quando acontece as pessoas se comprometem a doar parte do seu tempo, para o centro que está faltando gente para ajudar.

 − Posso te fazer um convite, como amigo?

 − Claro, que sim, Arthur, acabamos nos apegando demais, quando temos que passar esse tempo juntos.

 − Vamos passar um dia de lazer juntos?

 − Um dia inteiro?

 − É, passear, nadar, correr…

 − Podemos sim, faz tempo que não faço isso. Vamos combinar para semana que vem, ok?

 − Ok, Yndit, fico feliz de te levar para relaxar!!!

Arthur volta para o centro em seu apartamento. O anexo está implantando em um tipo de floresta de Carvalhos muito altos. Mas, mesmos elas sendo encorpadas, a luz do sol penetra em seus galhos criando feixes que se modificam a cada hora pelo caminho do sol no céu. Incrível as diversas formas que se cruzam, fazendo um espetáculo sem precedentes em minha visão. É tempo de agradecer por toda essa oportunidade, embora o que eu mais queria era poder estar com Helena.

E meu pensamento se volta para ela. Agora sei que tudo o que eu penso a Yndit, sabe, mas, não tenho como parar quando estou sozinho.

arvores de carvalhos

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